Um Universo de Robôs em Curto-circuito

Descender, a engenhosa e emocionante HQ de Jeff Lemire e Dustin Nguyen.

Quando me surpreendo com uma boa história de robôs, sempre penso: caramba, ainda existem formas diferentes de contar essas mesmas coisas. Vamos concordar que não somos mais garotos dos anos de 1940 que tiveram a sorte de ler Isaac Asimov pela primeira vez. Nossa geração já está calejada nesse assunto. E mesmo assim, num período de menos de dois anos, fiquei de boca aberta com belíssimas histórias de robôs. No cinema, tivemos o excelente Ex_Machina. Na TV, a promissora parceira entre AMC e Channel 4 com Humans. Finalmente nos quadrinhos, Descender, uma das melhores séries mensais da Image Comics.

Antes da história em si, vamos falar um pouco da talentosa equipe criativa. O canadense Jeff Lemire é um dos melhores e mais sensíveis roteiristas e desenhistas de sua geração. Entre suas criações estão graphic novels como Essex County e The Underwater Welder (essa última, acho uma história de pai e filho do quilate de Daytripper dos gêmeos e Moon). Além disso, séries como Sweet Tooth – Depois do Apocalipse, Trillium e uma cacetada de títulos pra Marvel (Gavião Arqueiro, Cavaleiro da Lua, Velho Logan) e DC (Homem Animal, Arqueiro Verde).

Descender é o primeiro “quadrinho de autor” (creator-owned) que Jeff Lemire não desenha. O traço ficou a cargo do vietnamita Dustin Nguyen (Batman, The Authority), que tem uma peculiar e surpreendente habilidade de arte-finalizar as páginas – a impressão, para o leigo, é de que ele coloriu por cima do lápis e não do nanquim em algumas páginas, o que torna a arte única.


A Jornada de Tim-21

O universo futurista nos é apresentado no limiar de sua destruição pelas mãos de uma espécie de deuses robóticos chamados de “Ceifadores”. As gigantescas máquinas exterminam centenas de milhões de vidas nos sistemas estelares mapeados. Uma década depois do apocalipse, todos os robôs estão fora-da-lei. Alheio a isso tudo, o robozinho familiar Tim-21 ficou “dormindo” durante estes dez anos no planeta minerador onde a família de seu “irmão humano”, Andy, trabalhava. Ele desperta em meio às ossadas dos operários e sem sinal de sua família. Não sabe dos Ceifadores, dos cultos robóticos, dos caçadores de recompensas que dizimaram boa parte dos robôs…

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Tim pertence a uma classe especial de robôs criados para ter empatia em níveis humanos. Seu criador, o Dr. Jin Quon, é a maior autoridade no assunto, mas tem um passado nebuloso – pra não soltar o melhor spoiler do primeiro arco, vamos dizer apenas que os robôs em Descender são registros arqueológicos que estão presentes no universo muito antes do primeiro ser humano. É claro que tudo isso tem a ver com Tim-21. Em certa altura, o robozinho é danificado e tem um “sonho”, o que é impossível para máquinas. Nesse devaneio, Tim consegue acessar o que parece ser o “céu dos robôs”, algo que interessa os dois lados da guerra. O caráter de “O Escolhido” dele talvez seja o único ponto batido da série até agora, mas tenho certeza que Lemire vai achar uma explicação para tanto.

f82bde07e28850bc069957fdeb74d00bO que faz de Descender algo tão especial é a sua empatia com os personagens – você se importa com todos. Do cachorro de lata Bandit ao robô-furadeira, o mal-humorado Driller; da dupla de militares, Telsa e Tullis, escalada para procurar Tim até os integrantes da aliança rebelde de robôs conhecida como Hardwire.

A HQ é uma ópera espacial em todos os sentidos. Brilha ao nos apresentar robôs com sentimentos, mas sem o melodrama de Pinóquio que Steven Spielberg narrou em A.I. – Inteligência Artificial. A aventura e o suspense lembram a série de games Mass Effect. Mas as comparações param por aí.

Descender está em seu terceiro arco de histórias. O primeiro (Tin Stars) e o segundo (Machine Moon) podem ser encontrados no site da editora, lojas virtuais, Comixology ou em edições encadernadas importadas em algumas livrarias. E a história vai virar filme. A Sony comprou os direitos de adaptação quando a série ainda estava nas primeiras edições.

Descender é uma dica pra todo mundo que gosta de ficção científica, mesmo que não seja fã de quadrinhos. Além de uma leitura sensacional, você vai ficar um bom tempo voltando e admirando páginas e páginas de uma arte desafiadora. Nem os corações de aço mais gelados vão resistir.

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