Por que todo mundo ainda assiste The Walking Dead mesmo?

Repetitiva e lenta, agora o que importa mesmo é causar polêmica.
Esse sou eu, esperando o inevitável turbilhão de fãs de TWD que virão atrás da minha cabeça.
Esse sou eu, esperando o inevitável turbilhão insano de fãs de TWD que virão atrás da minha cabeça.

Sério, quem ainda assiste The Walking Dead? Quem tem paciência de ficar, semana após semana, vendo uma uma arrastada história de uma intrépida trupe de personagens prestes a serem executados por algum novo vilão e que não vai a lugar algum? Qual é a real razão para acompanhar essa joça que não o desespero do FoMO?

FoMO, ou Fear of Missing Out, é um termo criado há alguns anos para o medo que a falta de uma nova tecnologia faz na vida das pessoas – e o pavor que isso causa nelas em achar que não ter um novo telefone, usar um aplicativo que todo mundo tá usando ou ser parte uma nova rede social do momento as fará perder algo incrível. Uso isso para o The Walking Dead.

Esse sou eu, fugindo da febre que é assistir ao TWD.
Esse sou eu, fugindo da febre que é assistir ao TWD.

Nós sabemos que a série não está boa. Aliás, talvez ela nunca realmente tenha sido boa de verdade. Nossa vontade nerd de buscar conteúdo novo na tevê foi tamanha que deixamos passar a lerdeza dos episódios… lembram do começo da segunda temporada na fazenda quando NADA aconteceu? Ou preferem esquecer?

Desde o início, duas grandes forças brigam contra a série. Uma é o desejo de seguir o arco dos gibis (os gibis são fantásticos, antes que vocês fiquem #xatiados comigo), o que é compreensível. Acho que a vasta maioria de tudo o que vi foi só por causa dos quadrinhos. Com isso, sempre significou que eu procurava ‘aqueles’ momentos de supresa iguais aos que tinha lido – uma síndrome bem parecida com assistir à Game of Thrones até a temporada passada. Obviamente, tudo o que essa série ainda tem (e teve) de bom veio dos gibis.

Mas na real, o que mais incomoda é que a série não se preocupa em se explicar. Todos os grandes shows se permitem debater o papel de seus personagens e da narrativa que sustenta a história toda, com personagens com profundidade suficiente para argumentos, discussões e embates antes de chegarmos a algumas conclusões. Nunca vi The Walking Dead ter isso. Todas as vezes que alguém faz algo legal, ou algo legal acontece, é certo que essa pessoa vai morrer – provavelmente de uma forma estupidamente grotesca pra causar o máximo de desconforto. Sem contar no necessário comentário que tal pessoa mereceu morrer por não conseguir agüentar esse mundo tão cruel.

A forma atual da série tem sido desenhar momentos de grande confusão e shock value sem qualquer preocupação em como isso carrega a narrativa da série adiante. As mortes de Abraham e Glenn, da forma excessivamente cruel, só demonstra que os criadores da série estão ali sedentos em causar o maior trauma na cabeça de quem tá assistindo. E só.

Queremos sangue! Queremos sangue!
Queremos sangue! Queremos sangue!

Funciona muito bem pra manipular a audiência, fazê-la voltar em maiores números a procura do mais novo banho de sangue, mas mais importante pelo maldito FoMO, e o momento em que você vira pro seu amiguinho e manda um ‘rapaz, tu NÃO ACREDITA no que aconteceu no TWD ontem…’ Ainda não entendo como, até agora, isso ainda não cansou. Aparentemente, o sadismo e a falta de ritmo ainda não encontrou seu ápice.

Difícil acreditar que uma série onde tão pouca coisa acontece por tanto tempo pode perdurar assim. Se reclamam tanto do Game of Thrones com certos episódios onde só a trama política e muitas vezes o desenvolvimento de um personagem precisava ser feito atrapalhava os momentos de assassinatos e batalhas, no The Walking Dead esses buracos são tão constantes que eu mesmo prefiro que a temporada acabe para poder pular adiante para um momento em que algo decente de fato acontece.

Figurante mais requisitado de todos os tempos. Aparece em todos os episódios. Impressionante.
Figurante mais requisitado de todos os tempos. Aparece em todos os episódios. Impressionante.

Os raros momentos de excitação e animação estão cada vez mais longe um do outro. O que sobra é uma série que pouco tem a dizer na vasta maioria do tempo. Se alguém me pedisse para resumir TWD hoje, diria o seguinte…

Um grupo de sobreviventes vive lutando contra zumbis num mundo apocalíptico. Acham um espaço que julgam seguro e tentam criar uma base lá, mas são confrontados por um inimigo inesperado. O perigo é imenso e a sobrevivência do grupo, incerta.  

Pronto. Repita isso quantas vezes quiser. Eis a série. Aparentemente, pra sempre.

Claro que esse formato funciona, sempre. Mas será que depois de sete temporadas, não tendo oferecido nada de realmente novo a não ser uma série spin-off, Fear the Walking Dead, que conta a origem do apocalipse zumbi. Até agora, e olha que são SETE ANOS disso, ninguém sabe ao certo o que vai de fato acontecer com o grupo principal de personagens. Tamanha volatilidade é sempre bem-vinda pra criar momento de tensão e drama, mas essa incessante e incansável batalha contra monstros (tanto os vivos quanto os zumbis) não pode ser o resultado final de tudo isso. Quando o futuro dos personagens é, temporada após temporada, cada vez mais incerto e temeroso, qual é a razão pra continuar os acompanhando?

Me falham razões pra explicar a popularidade inquestionável de The Walking Dead. Talvez seja o único programa de trabalha bem o conceito de zumbis (seria o único? Não sei ao certo). Sou totalmente a favor de uma série que abraça diversidade, coloca mulheres e minorias em destaque, mas TWD me enlouquece.
Diversidade!
Diversidade!

Como disse, a premissa da série é fantástica, os quadrinhos também, mas a necessidade de enfiar personagens num constante a la Ilha dos Birutas  (uma bela referência histórica, vai, pra base de argumento narrativo de séries como Lost, dentre tantas outras) mas sem qualquer boa idéia surgindo para dar um grande sentido à tudo o que acontece. Temos uma prisão super segura e, pimba!, lá vem um tanque pra destruí-la. Seria TÃO BOM ter um tema central, onde exista o questionamento fundamental para qualquer série dramática ter sentido. As pessoas são, no fim, boas? A humanidade precisa de sociedade?

Can't we all just get along?
Can’t we all just get along?

Se a série busca demonstrar que, com o colapso da sociedade civil como conhecemos, a vasta maioria as pessoas dotadas de consciência e moralidade se tornam extremamente violentos, essa é a saga dos poucos que ainda aderem à algum vestígio de humanidade? Para assim mostrar que mesmo no pior dos cenários ainda há uma luz no fim do túnel capaz de nos dar um mínimo de esperança? Eu sou totalmente a favor de ambigüidade, mas eu estou pra ver um personagem em TWD que não lamente a pessoa que era no momento em que pede uma escopeta pra explodir a cabeça de um inimigo.

Ficarei esperando pelos zilhões de tuítes e as declarações de espanto online para ir pegar o episódio ou dois da temporada onde coisas de fato importantes acontecem. No mais, volto a ler os quadrinhos de The Walking Dead que curto quando os encontrar na banca e continuo esperando ansiosamente o The Winds of Winter sair, desesperado pela série ter ultrapassado as histórias dos livros. Segue o jogo.

 

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Bruno Freitas

Gosto de gibis ruins (dizem), me amarro em conteúdo nerd de todos os tipos e, aparentemente, estou aqui para falar de adaptações para a telona e telinha – salvo algumas boas exceções e vontades minhas de devaneios paralelos.
  • Thiago De Almeida Silva

    Boa reflexão, Bruno!
    Gostei do conceito de FoMO que você explicou, acho que tem bem a ver. Concordo também que os caras estão arrastando a audiência ao máximo sem desenvolver a história.
    Por outro lado não concordo quando você diz que “a série nunca foi boa”. Você tem o arco da fazenda do Hershel que é bacana e mesmo a primeira temporada foi legal. Alguns episódios da prisão e aquela fase deles tentando estabelecer a segurança em Alexandria também rendeu alguns bons episódios.
    Outra coisa que devemos atentar é que mesmo na HQ a história também não vai pra lugar nenhum. O objetivo sempre foi sobreviver o máximo de tempo possível. E sem querer dar spoiler do quadrinho, mesmo quando eles conseguem um relativa calma, outra ameaça aparece. Nesse ponto de vista é quase um arquétipo de “Dragon Ball”, sempre vai aparecer um desafio maior e pior, sacas?
    Mas é certo que essa temporada está brincando com a audiência, e de uma maneira com muito mau gosto. Apresentar um clímax e depois dosar com episódios que só fazem “barriga” é muita sacanagem. E veja bem, nem acho que precisa haver sangue e morte em TODO episódio, mas precisa haver continuidade de roteiro, e nisso eles estão pecando. Concordo com você.
    Abraços! 🙂

    • Bruno Freitas

      É isso, cara! Desculpa a demora em responder. Não tinha visto seu comentário e ele tá na mira! Essa necessidade de alongarem demais os arcos deixa tudo muito enfadonho pra mim também. Por isso desisti. Fazer o quê, né. Acontece. Abs!