Sexualidade Maravilha

Nos 75 anos de sua criação da personagem, revista inédita no Brasil, traz à tona questões fundamentais da Mulher Maravilha.

Dizer que não sou fã da DC Comics é fácil e todos que me conhecem já sabem do meu desdém. Porque não sou. Há tempos venho tentando entender o que me distancia do material dessa editora de Burbank. Não sei se falta dinâmica, se é a narrativa, se o contexto e a ambientação é diferente o suficiente para eu simplesmente não conseguir curtir.

Pode muito bem ser a série de artistas e autores que eles têm que eu posso simplesmente não gostar. Os maiores clássicos da DC são fenomenais e merecem todo respeito do mundo. Afinal, como não gostar de Moore, Johns, Morrison… e Greg Rucka. Rucka é foda. E, agora, ele subiu ainda mais no meu conceito.

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Greg Rucka

Desde que eu sou gente (e há controvérsias sobre quando me formei pessoa), a questão da sexualidade da Princesa Diana fez parte do meu mapa mental todas as vezes que pegava um gibi pra ler ou me deparava com alguma iteração dela, fosse através da série de tv – sim, eu tenho idade pra ter assistido a série dos anos 70 dela – ou do fantástico desenho animado Super Amigos da Hanna-Barbera. Sua força, carisma, liderança e presença me fascinavam. E o fato de nunca haver um par romântico pra ela gerava a persistente dúvida de como ela se encaixava nessa miríade de opções sexuais que hoje temos a alegria de poder abertamente explorar, discutir e construir em sociedade.

A questão de sexualidade de heróis sempre foi tabu na indústria dos gibis. Apesar da mesma contar com uma significativa liberalidade em seus plantel de colaboradores , só agora, em plenos dois mil e dezesseis, é que vemos a questão de personagens com atração por pessoas do mesmo sexo tomar proporções minimamente razoáveis dentro dos padrões atuais. E, convenhamos, nerds não são o melhor exemplo de aceitação para os conceitos de homoafetividade que permeiam e fazem parte do cotidiano de qualquer comunidade nos dias de hoje. Talvez por isso a notícia trazida numa entrevista exclusiva ao Comicosity, surge o constante e sempre vivo debate da preferência sexual da nossa amazona predileta.

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Capa da edição nº4

Com a necessidade sempre pujante de se repaginar a cada quatro anos,  o que me dá bastante razão pra pra desgostar de muito do que sai de lá, a DC Comics vem com o Universo DC: Renascimento, e no aniversário de 75 anos da criação da personagem, traz à tona questões fundamentais do desenvolvimento das origens e terra natal da Mulher Maravilha e trabalha a homoafetividade da nossa heroína de uma forma bastante demonstrativa. Não à toa que essa série tem sido uma das mais aclamadas dessa renovada fase da DC Comics – não obstante o fato de, porra!, finalmente algo de decente sai de lá. Né?

A Ilha Paraíso nessa nova iteração  é simplesmente isso. Um paraíso. E como tanto, foge de todos as normativas heterocêntricas que permeiam as histórias da Princesa Diana desde sempre. O fato das Amazonas serem livres pra assumir posições hétero, homo, bi, poli é absolutamente crucial para quebrar as barreiras de estereótipos criados por décadas de roteiros e narrativas que fugiam da obviedade de tudo que acompanha as origens da Mulher Maravilha.

Afinal, ora bolas!, se você está no paraíso, onde se vive em total jubilação e alegria, e onde o contexto de felicidade de um indivíduo inclui um par amoroso, num ambiente povoado somente por mulheres, como não esperar que elas invariavelmente engajem em relacionamentos homoafetivos? Não faz sentido achar o contrário. E isso é que torna, atualmente, a obviedade do trabalho liderado pelo Rucka de apresentar a garantia de que a Diana, claro, em Themyscira, amou e foi amada por outras amazonas e, não, não é por causa de uma afeição ao Steve Trevor que ela se sente compelida a deixar seu lar.

ww-rbn-cv1-185409Transformar a penosa decisão da Mulher Maravilha de deixar seu lar pra sempre num devaneio e paixonite é absurdo e repleto de clichês machistas que merecem finalmente serem superados. Que tal alicerçar a decisão dela na inata vontade da protagonista de buscar o mundo e a resolução que esse sacrifício precisa ser feito? Olha o quanto se tira do heroísmo da Diana tirar a decisão da mente e coração dela e jogar pra sua virilha.

O melhor de tudo é decisão, clara e precisa, do Rucka de honrar o que todos sabemos ter sido a vontade de Marston e sua visão das Amazonas, no senso que elas vivem em uma sociedade utópica. Uma vida onde todas são irrefutavelmente aceitas. Essa inclusão é muito proativa, e transforma a visão que temos da Ilha Paraíso e tudo/todos que ali habitam. É sensacional.

Depois dos horrores, horrores!, perpetuados pela afronta aos nossos olhos que foi os ‘Novos 52’, é tão bom ver um material tão incrível chegar às bancas (americanas) e apresentar uma visão ampla e respeitosa da Princesa Diana. Inclusive, transforma a personagem em uma que eu faço questão de buscar entender mais, compreender seus anseios e decisões melhor. E sabe por quê? Agora eu vejo uma Mulher Maravilha realmente maravilhosa – em toda sua força, carisma e, claro, sexualidade.

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Bruno Freitas

Gosto de gibis ruins (dizem), me amarro em conteúdo nerd de todos os tipos e, aparentemente, estou aqui para falar de adaptações para a telona e telinha – salvo algumas boas exceções e vontades minhas de devaneios paralelos.