Quadrinhos Que Começam Com “i”

A Image Comics se tornou uma das mais interessantes quimeras da Cultura Pop. Uma casa que celebra a inovação e a diversidade. Uma editora que faz quadrinhos obrigatórios até pra quem não lê quadrinhos.

Tá cansado da Marvel matando e ressuscitando os mesmos personagens? Tá cansado da DC zerando o universo toda quinta-feira depois do almoço? Tá cansado da Vertigo preguiçosa vivendo do passado? Tá cansado de não ser desafiado por um meio de comunicação que você tanto ama? Pois é, eu estava assim em meados de 2013. Havia acabado de imigrar para o Canadá e era minha primeira chance de beber da fonte dos lançamentos e não precisar esperar pra ver o que o filtro das editoras brasileiras faria pingar nas bancas e comic shops (lembrando que essa barreira não existe há um bom tempo com as lojas virtuais de quadrinhos digitais e o inglês em dia… portanto, enjoy). Aí, Saga (que já foi dica no Mundo Gonzo, do Cassiano Pinheiro) aconteceu para o mundo e minha pilha de quadrinhos nunca mais foi a mesma por causa (novamente) da Image Comics.

Não que o sucesso tenha nascido desse “Romeu e Julieta numa galáxia distante”. A Image Comics já havia vendido aos baldes no início dos anos 90 com seus heróis anabolizados. Spawn foi um fenômeno midiático. Posteriormente, estreou a mina de ouro chamada The Walking Dead e liderou uma espécie de Era de Ouro dos Quadrinhos de Autor ao mudar as regras do mercado. Está aí o porquê de a editora ser a campeã em inovação. Ela abraçou exclusivamente o modelo Creator-owned, ou seja, os roteiristas e desenhistas são donos de todos os direitos dos personagens e histórias. Até a toda poderosa Vertigo dos anos 90 tinha uma turma do “Será?”. Isso reuniu muita gente nova e também figurões atraídos pela possibilidade de emplacar premissas insanas e pela liberdade editorial.

E quando eu falo de premissas insanas e liberdade editorial, não estou exagerando. Tem família NADA tradicional, filosofia, feminismo, empoderamento, delinquência juvenil, multigêneros, discussão de racismo, etc.

DITO ISSO, VAMOS A UM EXEMPLO:

chew
A bela capa da edição 15

Chew é uma das séries mais longevas, engraçadas e com a premissa mais absurda da editora. A obra de John Layman e Rob Guillory se passa após um catastrófico surto de gripe aviária que matou milhões de pessoas no mundo. A tragédia levou aquele franguinho de padaria e qualquer derivado de aves à ilegalidade, além de dar poder de polícia para todas as entidades de vigilância sanitária e afins. Aí que entra nosso herói, Tony Chu, um policial que tem o peculiar poder da “Cibopatia” – ele cria um elo psíquico com tudo o que come. Por exemplo, se a figura morde uma maçã, consegue visualizar a bucólica fazenda de onde ela foi colhida… Mas se for um bife, vai viver todo o terror que a vaca sentiu no corredor da morte do abatedouro. Para fugir das visões, Chu come apenas beterrabas que são insossas até psiquicamente.

chewvol1Daí você acha que eles vão fazer uma série de ficção científica séria – errado, ainda bem. Tony Chu come o pão que o diabo amassou na mão dos chefes do FDA, a agência federal de drogas e alimentos (por “pão que o diabo amassou” lê-se comer provas de crimes, cadáveres, cocô etc.). O que faz de Chew tão diferente e engraçada é esse exagero na premissa. Num mundo onde a comida é o fiel da balança narrativo, tudo gira em torno da mesa. Vamos conhecer personagens com poderes ligados à culinária, como o amor de Tony Chu, Amelia Mintz, que é uma crítica gastronômica e Saboscrivner (Saborescrivã?), ou seja, tudo o que ela escreve, as pessoas sentem – para o bem ou para o mal.

A dinâmica de Chew é fantástica. Layman e Guillory usam as visões culinárias de Chu como passagens de tempo e ganchos de flashbacks para descortinar uma trama que envolve extraterrestres, vampiros, um batalhão de operações especiais formado por femme fatales, terroristas gastronômicos franceses, traficantes de galeto e… Poyo, um galo de briga alçado à arma de destruição em massa.

Atéchew03 agora, editoras brasileiras estão comendo mosca em não lançar a série. Chew está no número 58 e apenas a duas edições de seu fim (outro bom elemento da Image, as séries acabam… bom, Walking Dead talvez não…), mas você pode comprar e ler as edições diretamente no site da editora, lojas virtuais ou em aplicativos de quadrinhos como o Comixology. As edições encadernadas importadas também podem ser encontradas em algumas livrarias.

Chew é apenas um exemplo da riqueza que a Image Comics coloca nas “bancas” todas as semanas. Espero poder dar mais dicas sobre essas HQs. Então, se você quiser conferir quadrinhos e criadores que pensam bem “fora da casinha” de ideias, basta procurar pelo “i”.

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