Power Rangers

Como os Tokusatsus influenciaram o seriado americano dos anos 90

E aí, beleza? Vamos começar tirando uma coisa do caminho que é bem capaz de irritar uma galera aí, mas que eu preciso deixar claro aqui antes de tudo. Nunca fui lá muito fã de Power Rangers!

“I know, right?” Pode ser purismo meu. Pode ser pedantismo mesmo. Pode até ser por conta da idade, mas o lance é que pra quem cresceu assistindo aos tokusatsus da extinta Rede Manchete (pergunta pro seu pai, vai lá, eu espero), Power Rangers sempre vai soar como uma cópia barata. E pode até ser que hoje em dia não seja bem assim, tenho amigos da minha idade que assistiram várias temporadas do seriado e me garantem de pé junto que melhorou bastante desde a época do Zordon e Alameda dos Anjos. Ainda assim, nunca passei de poucos episódios da primeira temporada.
Portanto, aproveitando a estréia do mais novo filme do “Super Esquadrão Dinossauro”, vim aqui dar um bizu pra quem não entende nada do que é tokusatsu, quem é Haim Saban, ou de onde vieram os Power Rangers. Senta que lá vem a história.

O que é tokusatsu?

O Japão é um lugar curioso. Ele sempre foi um grande exportador de cultura, estética e estilo, especialmente depois da Segunda Guerra. Arrasado por duas bombas atômicas e uma grande derrota na guerra, o país focou muito em reconstrução e em trabalhar muito esse trauma que a destruição trouxe. Reza a lenda que Godzilla, o mais famoso destruidor de Tóquio, só existe graças a esse “trauma atômico”. Segundo Bertold Bretch “infeliz a nação que precisa de heróis”, e naquela época o Japão estava bem infeliz e precisando de muitos heróis.
Temendo a “invasão americana” no mercado de super-heróis, o Japão começou a produzir os seus. “Tokusastu” literalmente significa “filme de efeitos especiais” e mais ou menos a cada década desde então o país se viu investindo em diversos tipos de heróis e monstros. O já mencionado Godzilla em 50, Ultraman nos anos 60 e Kamen Rider no início dos 70. Mas lá por meados dessa década também surgiram os primeiros rangers. Ou como são mais conhecidos por lá, os Super Sentais. Assim sendo, estreava em 1975 Himitsu Sentai Goranger (Esquadrão Secreto Goranger), abrindo as portas para um novo gênero de heróis.

Os Super Sentais

Desde então, a Toei Company, empresa criadora e detendora dos direitos dos seriados de sentai, lançava uma série nova a cada ano. Curiosamente, apenas as duas primeiras não incluíam os famosos robôs gigantes, Goranger e JAKQ. Logo em seguida a Toei lançou em parceria com a Marvel a série do “Supaidaman” (adoro falar esse nome em japonês). Com um certo receio do Aranha não funcionar com o público local, a produção achou por bem dar ao herói um robô gigante, o agora famoso Leopardon (eu sei, vai entender esse nome). Assim sendo, o Aranha foi o primeiro SUPER-herói a pilotar uma nave-robô no Japão. Logo em seguida, a próxima série de sentai Battle Fever J foi a primeira SUPER sentai de fato, com todos os heróis pilotando naves e formando um robô.
Enfim, a cada ano, ou a cada temporada, as equipes trocavam mesmo. Novas pessoas, novos poderes, novas ameaças, mas aparentemente o mesmo universo/planeta. Daí hoje em dia uns vídeos espalhados pela Internet mostrando com saudosismo uma mega batalha envolvendo todos os super sentais que já existiram, defendendo o planeta. É pra chorar de alegria.

E no Brasil?

Aqui no Brasil o sucesso se fez no final da década de 80, com a chegada dos mais famosos grupos de heróis japoneses. Claro que anos antes houve outros como Spectreman, National Kid e Ultraman, cada qual com seu grau de sucesso. Mas nada com o mesmo impacto (talvez eu esteja exagerando por motivos de saudosismo). Foi aí, por volta dos 6 ou 7 anos de idade que muitos viciaram em Changeman, Jaspion, Flashman, Jiraiya e cia. Muito por conta do choque cultural que foi bem grande. Não estávamos acostumados a ver heróis morrendo e/ou matavam nos desenhos da TV. Até as lições de moral eram em subtexto. O Change Dragon não aparecia no final do episódio dizendo “então amiguinhos, hoje aprendemos que se você matar um coleguinha sem querer num jogo de baseball, é importante superar esse trauma para que você possa jogar de novo algum dia”.

Esse “f@da-se” que os japoneses pagavam pro que era apropriado ou não pra crianças moldou a infância de muita gente. Assistir esses seriados por volta daquela idade dava uma sensação de “garoto mais velho”. As batalhas tinham uma carga dramática maior e os riscos eram mais reais. Os temas de honra, lealdade e amizade eram sempre muito fortes. Claro que hoje em dia algumas (ou muitas?) das histórias não se sustentam e parecem bem mais infantis do que a memória permite. Mas ainda assim algumas delas foram bem marcantes. E claro, as armaduras dos heróis e as lutas ajudavam bastante!

The Mighty Morphin’ Power Rangers

Anos 90! Os tokusatsus estavam perdendo força, mas com os animes entrando com tudo na tv brasileira. A Globo, parecendo estar meio atrasada na onda vem com um troçoparecido na TV Colosso. Assim, Power Rangers estreava em 1993! Com um tradicional grupo de adolescentes de 30 anos, que defendiam a Terra de ameaças do espaço. Só que pra quem já havia passado anos assistindo Jaspion, dava pra notar algo esquisito ali. E não, eu não estou falando da asiática que virava homem quando se transformava no Ranger Amarelo. Era a qualidade da imagem, mesmo. Na época eu não sabia, mas as produções japonesas eram filmadas em película.
O que é película, Kadu?
Bom, antes da era digital do cinema, todos os filmes do cinema eram filmados em película. Em rolo de filme. O nível de produção japonês era alto, apesar das maquetes toscas e dos monstros de cospobre. Os cara pelo menos investiam numa boa qualidade de imagem. Nos EUA, a produção televisiva não era feita em película, obviamente, que era super caro. Então quando chegou a hora de editar o quebra cabeças que era Power Rangers, ficou um troço mega esquisito.
Isso só aconteceu porque Haim SabanShuki Levy viajaram certa vez ao Japão e viram um dos sentais na TV. Usaram sua empresa, a Saban Entertainment para levar o seriado pros EUA. Nunca tinham visto algo do tipo, mas tinham certeza que faria sucesso. Como quase tudo na América, não dá pra usar o material original de nenhum lugar porque gera uma rejeição grande, então pensaram em usar apenas as cenas de luta e de robôs. Assim, só era preciso regravar novas histórias com atores americanos pro público americano. Cortando custos the american way, claro! Até 1991, quando os dois voltaram do Japão, na França já tinha sido exibido um outro Super Sentai. No Brasil e América Latina, outros tantos. O que só torna mais cômico esses sites lá de fora dizendo que “o mundo ocidental nunca tinha visto algo parecido”. Quando muita gente já estava curtindo o material original sem cortes, antes dos EUA.

O Reboot

O fato é que Power Rangers foi um baita sucesso nos EUA e no resto do mundo. Em especial, para uma galera mais nova que não teve a oportunidade de curtir a primeira onda de tokusatsus. O seriado gerou inúmeras continuações e outras tantas cópias baratas. Quem pode esquecer de Os Adolescentes Tatuados de Berverly Hills? Ou ainda do seriado em live-action das Tartarugas Ninja? Em 1997, foi lançado um filme razoável (pra crianças, vai?), onde os rangers mudavam a fonte de seu poder. Saíam os dinossauros e entravam os ninjas.
Então, em 2017, vinte anos depois do primeiro filme, os rangers voltam com um reboot que aparentemente tenta se levar mais a sério. Com atores de renome e inclusive trazendo de volta Brian Cranston, que estava em início de carreira quando dublou vários monstros do seriado original. Uma releitura de uma releitura de um seriado que é uma continuação de outros seriados. Power Rangers é uma fonte inesgotável de poder e deve continuar por mais um bom tempo. Com muita cor e muita energia pra lutar até o marketing esgotar!

Se você se interessou em saber mais sobre os tokusatsus e não quer perguntar pros seus pais o que diabos é um Gyodai, sempre tem outros lugares pra buscar informação. A galera do Podcrastinadores fez um podcast muito irado sobre os tokusatsus no Brasil. E os meus amigos do Canal Falha Crítica também fizeram um episódio do Sexta de 3 sobre tokusatsu. Vale a pena visitar os dois e saber mais sobre essa Era de Ouro das produções japonesas por aqui!

Oh, Yes! Colorir é lutar até cair! つづく


The following two tabs change content below.

Kadu Castro

Quadrinista. Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.