Pequenas Coisas Brilhantes – Todas as coisas que brilham

Depressão é coisa séria. Por isso, faz-se comédia dela.

Você tem seis anos de idade. Sua mãe está no hospital. Seu pai disse que ‘ela fez algo estúpido’. Ela tem dificuldade de ser feliz. 

Então você começa a fazer uma lista de tudo que mais brilha no mundo. Tudo que faz valer a pena viver. 

1. Sorvete

2. Filmes de Kung-Fu

3. Queimar as coisas

4. Rir tão forte que leite espirra do seu nariz

5. Guindastes

6. Eu

Você a deixa no travesseiro dela. E sabe que ela leu porque sua escrita tá corrigida. Em breve, essa lista ganhará vida própria.

Não tinha ouvido falar no Jonny Donahoe: esse sujeito carismático e britânico até dizer chega. Gordinho, ficando calvo, com sorriso gentil e trejeitos de quem parece ter passado a vida sendo desajeitado e desacostumado com a sociedade. Nunca fui assim.

Minha carência emocional me levou a outros extremos. Sempre fui, e sou, afável e expansivo… alguns dizem carismático. Dono do palco, sempre no controle e projetando segurança, confiança e palavras bem construídas.

Nesses últimos tempos, no meio dos meus 30, venho questionando isso. O meu papel diante dos meus pares. Quem eu sou e o que de fato sou. Por isso tudo, assistir ao Todas as Coisas que Brilham, na HBO, me tirou o chão.

Esse documentário é a filmagem da adaptação do sucesso da Broadway, que conta a história de um filho que cria uma lista de coisas que mostram que vale a pena viver – em uma tentativa desesperada de animar sua mãe com depressão crônica e repetidas tentativas de suicídio. Entre falas, momentos e respiros, a dor, a angústia, a perda… e o riso.

A tragicomédia é pra mim fruto da nossa necessidade de rirmos através da dor. Apesar dela. A palhaçada séria que nos faz rir alto. O ser palhaço é se despir das amarras e se declarar, falho, abertamente ao seu público.

Como diz esse excelente artigo da Universidade Federal do Ceará: “Na relação com a platéia, o clown funciona como um espelho, proporcionando que as pessoas que o assistem entrem em contato com aspectos de si que dificilmente acessariam por conta própria; rindo de si, ele provoca o riso nos outros”.

E é isso que Jonny, e o escritor Duncan McMillan, tão brilhantemente apresentam aqui. A tragédia de viver uma vida sob a sombra da depressão, das tentativas de suicídio com as intempéries da vida, dos relacionamentos, surpresas e desafios, e o humor que ali persiste. Que não desiste, apesar dos pesares.

A inevitável comédia que habita em todos os momentos de nossas vidas. E a lembrança que fica, de tudo aquilo que nos fez chorar, e que hoje nos coloca, com lágrimas nos olhos, a sorrir. E, quem sabe, até gargalhar.

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Bruno Freitas

Gosto de gibis ruins (dizem), me amarro em conteúdo nerd de todos os tipos e, aparentemente, estou aqui para falar de adaptações para a telona e telinha – salvo algumas boas exceções e vontades minhas de devaneios paralelos.