Os Bastardos e Inglórios de Southern Bastards

A premiadíssima HQ dos sulistas Jason Aaron e Jason Latour.
Uma Cidade Contra Earl Tubb

O interior. Se você não nasceu em uma das grandes capitais do Brasil ou suas respectivas regiões metropolitanas, fatalmente vive ou viveu no interior. Confie em mim, o país tem 5.570 municípios e muito mais interior do que você se dá conta. Por mais cosmopolita que ele seja, acaba exercendo em nós uma espécie de efeito bumerangue misturado com Síndrome de Estocolmo. Você passa uma parte de sua vida odiando certos aspectos, mas acaba sempre voltando ou defendendo o lugar onde nasceu. Uma relação de amor e ódio que mais tem a ver com as pessoas do que com a terra em si.

O QUE VAI PESCAR VOCÊ?

Essa relação é o primeiro elemento que te pesca em Southern Bastards, a premiadíssima HQ dos sulistas Jason Aaron (Scalped, X-Men, Star Wars) e Jason Latour (Spider-Gwen, Django Unchained). O primeiro, nascido no Alabama, disse que a série é “uma carta de amor/grito de ódio para o sul dos EUA”. O amor às cores, sabores e misticismo… Mas o ódio ao atraso, violência, fundamentalismo religioso, desigualdade e racismo que insistem em fazer parte da paisagem social desses estados.

ctw1kcbA dupla de Jasons decidiu pintar esse sul de vermelho, literalmente. Sua Craw County, lar da melhor costeleta e dos piores bastardos do Alabama, apresenta o extremo do que o interior pode oferecer em termos de estereótipos. É esta cidade que assiste à volta de um de seus filhos ilustres depois de décadas. Earl Tubb é um sessentão, filho de um antigo xerife local que resolvia tudo na base do porrete. Mas Earl, pensando em passar poucos dias para ajudar um parente, encontra uma cidade muito pior do que deixou. Craw County é agora dominada por outro “bom filho” da comunidade, Euless Boss, treinador do time de futebol americano da escola local e rei do crime provinciano.

É impossível não pensar naqueles filmes de “exército de um homem só”, em vários personagens de Clint Eastwood, heróis acidentais dos Irmãos Coen e em faroestes nos quais a cidade é quase um vilão a mais na história. Southern Bastards nos choca porque todos nós conhecemos uma cidade ou bairro onde o medo venceu a bondade, o comodismo venceu a razão. Lugares que não vão mudar sua mentalidade coletiva nem que você esfregue a verdade na cara das pessoas e quebre alguns ossos no processo. Southern Bastards tem um lirismo pessimista no texto, na arte, na escolha das cores.

The Boss

A série já tem três arcos, o primeiro (Here Was a Man) focado no retorno de Earl Tubb e o segundo (Gridiron) que conta o passado do Coach Boss. Nada dos sulistas em bancas brasileiras, mas você pode conferir Southern Bastards no site da editora, lojas virtuais, Comixology ou em edições encadernadas importadas em algumas livrarias. A série também pode pintar na TV mais cedo do que você imagina. O FX, casa de produções como Sons of Anarchy, Fargo, The Americans, Justified e American Horror Story, adquiriu os direitos de adaptação.

Southern Bastards é uma leitura essencial pra quem quer acompanhar as melhores séries mensais da Image, mas está longe de ser uma leitura fácil. Em muitos momentos, você vai fechar o volume, engolir em seco e pensar: Cacete, por que você não vai embora, Earl? Por que você vai se enterrar ainda mais nessa, Boss? Perguntas parecidas as que você faz a si mesmo quando olha pra suas origens e é atraído, como um mosquito para a luz, pela beleza e pela a dor do passado.

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