O que faz os filmes da Marvel darem tão certo?

Vamos tentar entender o motivo da DC/Warner ainda não conseguir a proeza da Marvel/Disney na telona.

Por que a Marvel é tão melhor quando se trata de fazer filmes de super-heróis?

A premissa básica da raiz do primeiro e icônico super-herói criado foi bem construída: alguém que deveria servir de exemplo, de inspiração, para nos fazer melhor ao mostrar ao mundo como ser bondoso e ajudar o próximo. Um ‘Campeão dos Oprimidos‘. Alienígena em todos os sentidos, vindo de um mundo extraterrestre e tendo sido criado em uma fazenda no meio do Kansas, essa mistura de poderes sem limite e valores tradicionais interioranos dos ianques deu para todos uma oferta imbatível.

Clark tá bolado, gente.
Clark tá bolado, gente.

Tem temas obscuros que surgiram no caminho desse nosso Super-Homem e, polêmica a parte, a construção de um personagem no meio de um mundo com medo de imigrantes e refugiados deu à Warner um trabalho ingrato de traduzir os gibis e escrever o roteiro dos filmes do Clark Kent para a telona. Nos atuais filmes do Homem de Aço, seus pais não o colocam diante da missão de ajudar os outros, e sim de esconder seus poderes e fugir da sua comunidade ao invés de se juntar à ela.

Na mais recente “reimaginação” das origens do Superman, Johnathan Kent, pai de Clark, inclusive morre para demonstrar a um jovem Kal-El que está tudo bem ver um amado morrer para manter seu segredo intacto. Isso demonstra que ele não só nada deve à humanidade, mas que na real a mesma certamente irá rejeitá-lo quando souber de sua existência. Portanto, vemos a criação e desenvolvimento de um cara superpoderoso e bastante #xatiadu.

Então é claro que a Warner, ao modernizar o Super-Homem, o transformou em um ser cheio de conflitos e bastante sombrio. Se os super-heróis são um espelho de nossos sonhos e aspirações, o filme moderno do Homem de Aço é um pesadelo distópico de xenofobia, egocentrismo e autoafirmação. Hoje, não somos nós que nos inspiramos a atingir os ideais idílicos de um ser magnânimo – ele se sucumbiu a se rebaixar ao nosso nível.

No seu primeiro e ótimo filme em 1978, vimos um Super-Homem bem diferente, leve e até bastante cômico. Fazia parte do ambiente cinematográfico e da expectativa do público para com esse tipo de conteúdo. Vamos lembrar da série do Hulk do Lou Ferrigno e do Batman do Adam West. Era tudo bem colorido e leve. A pegada atual dos filmes é que está em questão aqui, porque não dá para comparar a visão antiga (e até incluo o Tim Burton e seu Batman) com o momento atual de rivalidade entre a Marvel/Disney e a DC/Warner.

Estamos pegando os dois universos cinematográficos caminhando juntos no mesmo período de tempo. Assim dá para fazer uma comparação mais decente. E por isso vale falar do Batman do Christopher Nolan.

Por quê tão sério?
Por quê tão sério?

Abordando o tema central de um Bruce Wayne doído, ausente e recluso, problemático e angustiado, a performance de Christian Bale sob a tutela de um Nolan respeitoso ao “material fonte” trouxe à tona a possibilidade de vermos um mundo longe do ideal com um anti-herói igualmente longe do ideal. Mas foi na força das performances de atores de calibre que consegue-se traduzir um cenário tão difícil para a telona em uma trilogia que, convenhamos, vai perdurar como uma das mais bem feitas de todos os tempos.

Então o que atualmente faz os filmes da Marvel darem tão mais certo?

O Universo Cinematográfico Marvel funciona porque ele carrega consigo uma fórmula imbatível de apresentação e desenvolvimento de personagens: faça-os da forma mais simples e tradicional possível e coloque o material na mão de quem saiba atuar.

O Capitão América é um peixe fora d’água tanto quanto o Super-Homem. Soldado com super força, resistência e reflexos, ele é um ser de outro mundo. Steve Rogers veio de uma cultura pós-Segunda Guerra onde a linha entre o Bem e o Mal era muito mais facilmente desenhada. Sabia-se naquela época o quê e pra quem se lutava – e o lado que você escolhia.

Os valores idealizados por um jovem soldado em tempos idos de guerra da América em muito se assemelham àqueles de um fazendeiro do Kansas. Ser um rapaz tradicional e de valores íntegros o transforma em alguém descolado da realidade atual. Fora de seu elemento, e com um sistema de valores e moralidade que hoje são dignos de emulação, o Primeiro Vingador é uma figura inspiradora num mundo repleto de compromissos éticos e morais.

É um pássaro? É um avião?
É um pássaro? É um avião?

E por isso o Capitão América é, no cinema, tudo aquilo que funciona onde o Superman não consegue. Steve é um escoteiro, figurativamente e não. O que faz a diferença é que a Marvel sabe disso. Sempre soube. Enquanto a Warner criou um Super-Homem que é somente mais um cara que, apesar de voar e ser super forte, é depressivo e chateado com o mundo e resolve matar seu inimigo na primeira tentativa dada. Não tentaram criar um herói batalhando contra o funcionamento do mundo e da nossa humanidade; simplesmente desistiram do ideal e cederam ao real.

A Marvel manteve a estrutura central de um Capitão América e o colocou num mundo onde nada é simples, e com isso são capazes de construir uma tensão proveitosa no decorrer da narrativa ao explorar a liderança do Steve Rogers e seus coadjuvantes em todos os filmes onde ele se encontra. E havia uma chance de encontrarmos um espaço decente para o Super-Homem em 2016, mas, para mim, a Warner reagiu à isso destruindo o personagem. É claro que muitos gostaram do que viram nas telonas. A Marvel, no entanto, reagiu centrando a idéia que uma moralidade idílica não existe mais a colou à frente da narrativa e demonstra que, na verdade, essa imagem de mundo ideal nunca realmente existiu.

O resultado disso são filmes de ação e aventura, com humor e leveza quando necessário, mostrando uma versão moderna e atual de personagens que não precisam bancar o herói o tempo todo e admitem que o mundo é bem cinzento e capaz de inúmeras interpretações e nuances. A Marvel mostra à Warner, há anos, como fazer um bom filme de super-herói. Estou na torcida para que, no vindouro Mulher Maravilha, a Warner tenha aprendido essa lição.

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Bruno Freitas

Gosto de gibis ruins (dizem), me amarro em conteúdo nerd de todos os tipos e, aparentemente, estou aqui para falar de adaptações para a telona e telinha – salvo algumas boas exceções e vontades minhas de devaneios paralelos.