O fantasma da crítica casca

#Comofaz quando você quase se deixa levar pelo que dizem?

Eu não leio mangá. Nem vejo anime. Bom deixar isso já estabelecido, já que viemos falar da mais recente exploração hollywoodiana de conteúdo da terra do Tio Naruto: a verão para a telona do ‘A Vigilante do Amanhã‘ (uma sempre perfeita tradução brasuca para Ghost in the Shell).

Acredito não ter lido uma crítica sequer que não seja absolutamente devastadora. Caíram em cima da escolha de atores para os papéis, da produção, execução, adaptação do material-fonte… tudo. Um tsunami (Rá! Referência japonesa pro mangá/anime!) de verborrágicas humilhações de tudo quanto é lado.

Apesar de tudo, calhou do horário do filme bater com o meu almoço nesse final de semana. Meu grupo nerd no Telegram já tinha me avisado que até valia a pena ver, mas depois de tanta porrada tinha certeza que seria um desastre. Contra meus melhores instintos adentrei a sala, lanchinho na mão, esperando, quem sabe, um belo cochilo vespertino naquele moroso sabadão.

Que surpresa boa eu tive. Notadamente, ‘A Vigilante do Amanhã’ não é nada especial em termos de desenvolvimento de enredo. Chega bastante longe disso. Mas é, pra mim, o filme visualmente mais impressionante que vi nos últimos tempos.

Pra ser bem sincero, acho que é o filme mais impressionante que vi no cinema desde ‘Avatar’.

Não há como negar o brilhante trabalho de edição, cinematografia e efeitos especiais do filme. Sou muito pouco fã de filmes em 3D, mas esse foi feito pra ser apreciado em mais de duas dimensões. Tudo funciona visualmente. Por vários momentos, me senti assistindo um Final Fantasy dos sonhos na telona.

É bem difícil negar que é um problemão termos tantos filmes que chamam atores e atrizes caucasianos pra interpretarem personagens asiáticos… estamos olhando pra vocês, Emma Stone em ‘Sob o Mesmo Céu’, Matt Damon em ‘A Grande Muralha’ e Tilda Swindon em ‘Doutor Estranho’. O impressionante é que, mesmo com tamanha repulsa do público e de claros resultados negativos nas bilheterias desses filmes (tirando ‘Doutor Estranho’ da jogada), Hollywood insiste no erro.

Mesmo com tudo isso, com os claros erros de elenco, a Scarlett entrega minimamente bem sua personagem. Michael Pitt também. A desculpa dada, de andróides andróginos sem clara definição racial, se desconstrói quando descobrimos que a Major é, de fato, a Motoro original do anime. Com um material-base tão rico em detalhes, conteúdo e vasta referência asiática, pegou muito mal.

Admito que adorei mais uma visão de mundo distópica, dominada por corporações que compram governos (diferente de hoje, não?). Ambientes repletos de pessoas completamente modificadas em uma sociedade onde cores e raças e implantes cibernéticos se misturam em uma míriade de formas e corpos. Fiquei muito ansioso pro que o novo Blade Runner irá mostrar.

Enquanto espero, fico aqui, diferente de praticamente todo mundo, encontrando nesse filme duas horas de entretenimento e um espanto visual que nenhum filme em anos conseguiu alcançar.

The following two tabs change content below.

Bruno Freitas

Gosto de gibis ruins (dizem), me amarro em conteúdo nerd de todos os tipos e, aparentemente, estou aqui para falar de adaptações para a telona e telinha – salvo algumas boas exceções e vontades minhas de devaneios paralelos.