O Bispo da cor errada

Uma ode ao X-Man mais fodão de todos os tempos.

Tentando achar um título para descrever meu X-Man predileto, vasculhei alguns termos enxadristas para dar suporte à esse artigo. Surgiu, surrupiosamente, o termo ‘Bispo da cor errada‘ – expressão utilizada com frequência em finais para indicar um bispo que não é capaz de proteger a casa de promoção do peão da torre que se deseja promover. Quão apropriado, então, esse termo, pelo incômodo do uso da ‘cor’ e pela descrição da incapacidade de proteção do bispo em questão.

O nome dele é Bispo, e nada mais será o mesmo!
O nome dele é Bishop, e nada mais será o mesmo!

Lucas Bishop apareceu nos quadrinhos em novembro de 91, na Uncanny X-Men #282. Por quê isso é relevante? Em janeiro de 92 me mudei para a Nova Zelândia: lugar de imensa beleza, tranquilidade e história.

Como um moleque de voraz sede de conhecimento e uma inata curiosidade que beira o insuportável, mergulhei nessa História essa que, através dos Maoris (indígenas das ilhas que constituem o país), me fizeram buscar as raízes dos povos que habitavam – e habitam – a Oceania antes do homem branco chegar. Eis que também começo a ler sobre os Aborígenes, povo resoluto e fascinante da Austrália, primeiros descendentes dos modernos Homo Sapiens que saíram da África em busca de novas terras.

Agora imagem um garoto recém-chegado à um estranho país, ainda sem amigos e sem qualquer conhecimento do lugar. Depois, o imaginem buscando livros e coisas para ler e me deparando com uma colorida capa que dizia, em letras garrafais: ‘O nome dele é Bishop e nada mais será o mesmo!’

Bishop era um maluco gigante, fortão, negro, vindo do futuro e que canalizava energia nas mãos e em armas super fodonas. Oras, como não se amarrar no cara? Filho de refugiados Aborígenes uns 80 anos no futuro, que fugiram para os EUA um dia antes de um ataque nuclear à Austrália, ele se tornou um personagem crucial que adorava ler – ainda mais porque tive a chance de vê-lo aparecer e estava no lugar certo e na hora certa para acompanhá-lo.

Com histórias tenebrosas de vida, como o fato de ter sido criado num campo de concentração para mutantes pela sua avó (supostamente a Tempestade, supostamente não), morta na Rebelião Summers quando mutantes e humanos se juntaram contra os Sentinelas – um dia escrevo sobre o melhor gibi one-off de todos os tempos: ‘X-Factor Special: Layla Miller‘. Bishop se torna ao longo de sua história um policial, um líder e uma referência de tudo o que os X-Men têm de melhor. Primeiro cadete e depois um dos membros fundamentais da Força de Segurança X, em homenagem ao Xavier e sua visão de convivência pacífica, Bishop vive na missão de servir a um propósito de salvação da sua realidade – e isso vai passar por decisões sempre muito difíceis.

Sua irmã Lasca consegue entrar na FSX com ele, mas , agora líder de uma equipe, cai numa emboscada do seu namorado psicopata Trevor Fitzroy, e Bishop se vê no sacrifício de matá-la, preferindo isso à vê-la se tornar um monstro que, para sobreviver, precisaria matar mutantes e roubar sua energia. Quando nosso intrépido herói (ou anti-herói?) encontra uma mensagem gravada pela Jean Grey avisando sobre um traidor, ele corre atrás do Testemunha, único sobrevivente que dizia ter conhecido os X-Men originais, mas ainda desconfiado Lucas Bishop vive atrás de respostas para tudo… como eu.

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É essa insaciável e neurótica busca por informação e significado é o que mais me atrai ao personagem. Sou igual ao Lucas, dadas as devidas proporções de morte na família, aprisionamento e viagens temporais. Como o Mate de Boden, Bishop se sacrifica em linhas temporais para abrir espaço o ‘rei’ (seu objetivo final) ser alcançado.

Um homem fora do seu tempo. Buscando respostas. Incessante na sua luta por justiça e um futuro melhor. Não há como não torcer por ele, especialmente quando tudo parece estar contra você, e mesmo assim a vontade é de perseverar, lutar contra as probabilidades e superar seus desafios.

Era assim que me sentia quando primeiro li sobre o Bishop num gibi no começo de 1992, assim que cheguei na Nova Zelândia – um pirralho perdido, num lugar novo, de língua diferente e costumes diferentes. Me adaptei olhando pra frente, encarando desafios e brigando pelo meu espaço. Tal como o Lucas.

Seu passado o define, mas não é tudo. Estamos como ele sempre buscando algo a mais, uma mudança que possa permitir algo melhor. Um futuro melhor, um presente melhor. Algo que nos dê segurança, alegria, tranquilidade. Algo que nos permita respirar aliviado.

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Fizeram do Bishop um anti-herói (vilão?) uns anos atrás. Identificando o potencial destruição ao seu futuro pelas mãos de Hope Summers, primeira mutante nascida depois da Dinastia M, Bishop se tornou um obcecado caçador da pequena. Enquanto Cable (meu segundo X-Man favorito) a protegia, rolou uma saga imensamente interessante e o último grande arco de atuação do meu X-Men predileto. A decisão de torná-lo de certa forma antagônico à sobrevivência da Hope e seu futuro como única mutante nascida depois dos atos da Feiticeira Escarlate me fez questionar o que estava fazendo com meu querido personagem. Mas, ao mesmo tempo, solidificaram o que mais me atrai nele.

Todo o desenvolvimento da saga do Complexo de Messias trouxe à tona o Bishop em sua melhor (apesar de tudo) forma. Um homem sem medo, fixado em seus princípios e disposto a tudo para lutar pelo que acha certo. Alguém que não se importa com as consequências dos seus atos perante a ótica do outro, contanto que ele próprio siga sem pestanejar o seu código e, assim, não assuma compromisso maior com aquele que se deve assumir a si mesmo.

Pra quem se interessa por ele de alguma forma, e se esse texto serviu de alguma coisa, por favor leiam a breve série ‘The Lives and Times of Lucas Bishop‘. Não lembro haver uma versão nacional, então façam questão de buscar na gringa. Explica bem as origens e razões por trás do grande personagem que norteou uma parte da minha vida desde longínquos mil novecentos e noventa e dois.

Fucking badass...
Fucking badass…

Hoje, ele já pediu desculpas à Hope, e está no limbo do Universo Marvel. Uma pena. Meu herói, anti-herói, vilão, renegado, aborígene, solitário guerreiro sempre terá um espaço cravado no meu coração e na minha mente. Bishop me ensinou a seguir meus instintos e ser sincero comigo mesmo. Isso, nunca ninguém conseguirá tirar de mim.

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Bruno Freitas

Gosto de gibis ruins (dizem), me amarro em conteúdo nerd de todos os tipos e, aparentemente, estou aqui para falar de adaptações para a telona e telinha – salvo algumas boas exceções e vontades minhas de devaneios paralelos.