Não Se Reprima, Nostalgia Está Aí Pra Ser Usada

Como Stranger Things, a HQ Paper Girls, de Brian K. Vaughan, também é um tiro certo.

9854239Esse ano, por coincidência poucos meses antes de Stranger Things e Paper Girls pintarem na área, li um livro chamado Retromania: Pop Culture’s Addiction to Its Own Past, do jornalista e crítico musical Simon Reynolds. Basicamente, o autor analisa nosso vício em nostalgia e como a produção cultural pode ser um bem não renovável. Ele propõe uma espécie de apocalipse cultural quando acabar a matéria-prima para caixas de relançamentos de discos, remakes cinematográficos, fadiga no revezamento da moda e por aí vai…

Claro que a tese de Reynolds é um pouco exagerada. Ele até sustenta uns bons pontos, como a armadilha de viver do passado e não dar chance ao novo (tento fazer as duas coisas – dá um trabalho danado, mas tem funcionado). Mas o que escapa ao autor, na minha opinião, é a função benéfica da nostalgia. Sabe aquela referência que você pega que enche teu coração de calor ou arrepia teu braço? Pois é, viciante, não? Mas hipsterismo e nostalgia não são dois lados de uma guerra. O equilíbrio permite que você desfrute de experiências que afagam suas memórias e outras que desafiam suas preferências.

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Turminha animada.

Ah… os 80s

Já que tá liberado olhar pra trás com coisa nova, corra pra ler Paper Girls. A série é escrita por Brian K. Vaughan, o autor do fenômeno Saga, além de Y: O Último Homem, Ex Machina, Runaways, Leões de Bagdá, We Stand On Guard… O cara é uma máquina. Em Paper Girs, ele se aliou ao desenhista Cliff Chiang (Mulher Maravilha, Human Target) e ao colorista Matt Wilson (Demolidor, The Wicked + The Divine).

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Meninas do barulho.

O pacote oitentista já chega de cara. Não há nada mais memorável sobre os subúrbios norte-americanos do que aqueles entregadores de jornal – molecada em bicicletas BMX que vai tacando a edição do dia na porta do povo. Mas como Vaughan só nos dá motivo para amá-lo, ele trocou o protagonismo masculino dos anos 80 por quatro garotas (que armam grandes confusões… brincadeira).

Começamos pela madrugada de trabalho de Erin na entrega das edições fresquinhas do Cleveland Preserver, justamente no dia seguinte ao Halloween. Já dá pra imaginar que criaturas sinistras de verdade e de mentira andam juntas numa madrugada assim. Erin logo encontra suas três futuras companheiras de aventura: Tiffany, KJ e a lendária primeira jornaleira do bairro, Mac. Juntas, elas vão enfrentar uma trama que envolve seres de outro planeta (ou dimensão???), viagens no tempo, arrebatamento, controle mental, deuses-astronautas e delírios com Ronald Reagan.

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Altas confusões.

Em Stranger Things, as obviedades das tramas oitentistas fazem parte do enredo e não prejudicam em nada a narrativa. Você prevê tudo que vai acontecer (da maneira mais feliz do mundo). Já na HQ, Vaughan consegue encaixar elementos novos – muito com a ajuda dos conceitos criados por Cliff Chiang. Mesmo assim, o desfile de referências não para: E.T. – O Extraterrestre, Conta Comigo, Goonies, Deu a Louca nos Monstros

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Bichos do outro mundo.

Mas aí você me pergunta: quem imitou quem? Stranger Things ou Paper Girls? Aparentemente ninguém, amiguinhos e amiguinhas. As séries foram produzidas basicamente ao mesmo tempo – a HQ até saiu antes, mas como revista mensal. Boas ideias são bolas quicando por aí esperando alguém chutar. Ambas acertam também na diversidade, algo que tem sido o norte da bem-sucedida linha editorial da Image. Paper Girls é um desses Gatos de Schrödinger – nostálgica e progressista ao mesmo tempo. Viu como dá pra curtir as duas coisas. Ao contrário do que dizem por aí, o mundo anda bem divertido, principalmente graças à Netflix e Image Comics.

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