Motoqueiro Fantasma 2099

O Espírito do Ciberespaço
Zero se transforma no Motoqueiro do Futuro (clique e aumente)
Zero se transforma no Motoqueiro do Futuro (clique e aumente)

E aí, galera? Beleza? Estou de volta ao Mundo Gonzo para tratar de gibis do passado.

Com o sucesso que ele anda fazendo em Marvel’s Agents of S.H.I.E.L.D. eu sei que você já deve saber tudo sobre a mais nova encarnação do Motoqueiro Fantasma, Robbie Reyes. Graças aos filmes você também já deve saber muito sobre Johnny Blaze e talvez, talvez, você já saiba quem é Danny Ketch. Mas fica aqui a pergunta: Você sabe quem foi Kenshiro “Zero” Cochrane? Então se liga aqui porque eu vou falar sobre o Motoqueiro Fantasma 2099!

PS: Zero Cochrane não é filho do Almirante que dá nome àquela rua na Tijuca, RJ, ok? 

Em 1992, o universo 2099 foi lançado pela Marvel nos EUA com quatro revistas: Homem-Aranha, Destino, Justiceiro e Ravage. Aqui no Brasil a linha chegou em 1993. Foi um sucesso, claro. Tanto que os fãs pediram mais e mais personagens da editora ambientados nesse futuro distante. Daí para as versões 2099 de Hulk, X-men e Motoqueiro Fantasma foi um pulo!

Vai querer sair na mão com o Motoqueiro?
Vai querer sair na mão com o Motoqueiro?

Em 1994 o Motoqueiro Fantasma 2099 foi lançado pelas mãos de Len Kaminski e Chris Bachalo. Kaminski já havia escrito vários trabalhos pra Marvel, incluindo aí o Motoqueiro do presente e Homem-de-Ferro, mas nada de muito destaque. Já o Bachalo eu acho que dispensa apresentações, né? Sou super fã do estilo dele, ainda mais quando ele deixa o desenho com aquela cara meio “suja”. Com o Motoqueiro 2099 o estilo caiu como uma luva de motosserra! Pena que não durou muito. Logo ele foi substituído por Kyle Hotz, que ok, não é ruim. O cara manteve o nível dos desenhos, mas eu bem queria que o Bachalo tivesse continuado por mais edições.

O legal das primeiras histórias do personagem é que elas fazem parte de um universo cyberpunk que a Marvel ainda não tinha explorado muito bem na nova linha. Beleza, o Aranha lutava contra corporações, mas muitas vezes ele tinha um “quê” religioso por trás, com o lance de ser o “precursor” de Thor e tals. Os X-men andavam na mesma linha de sempre e o Justiceiro era um tipo “noir + futurista”. Faltava alguém que levasse esse universo pro nível de cyberpunk que a gente tinha visto em Akira, sabe? Ou Johnny Mnemonic. Ou até mesmo Passageiro do Futuro! E cara, essas são influências pro gibi que só faltam te dar na cara de tão óbvias! Mas funcionam tão bem que nem vou reclamar, juro.

Tudo começa na Cidade Transversal, uma mega cidade-rodovia de vários andares que ocupa basicamente todo o espaço onde antes ficavam as cidades de Chicago e Detroit, nos EUA. Pra você ter uma idéia, é como se as cidades do Rio de Janeiro e São Paulo se expandissem ao ponto de serem uma cidade só. Nesse caos urbano, quem manda é uma corporação (claro) chamada D/Monix. Aliás, adoro esses nomes! Pra ser mais óbvio, só se ela se chamasse, tipo, “Corporação Diabão do Mal”, hehe.

A transformação final à la Schwarza e a motoca irada!
A transformação final à la Schwarza e a motoca irada!

Zero Cochrane faz parte de uma das muitas ciberganges que infestam o local, os Hotwire Martyrs. Os caras pegaram por um acaso uma informação super-secreta no ciberespaço e pouco antes de conseguirem destravar o tal arquivo, eles são emboscados por uma gangue rival. Na fuga, todos os membros da gangue de Zero são mortos mas ele consegue escapar até encontrar uma cabine telefônica. (OI, MATRIX) Cercado e à beira da morte, Zero se joga no ciberespaço com tudo, fritando o seu cérebro no mundo real devido ao enorme fluxo de informação. Com sua consciência vagando livremente no mundo virtual, ele é cooptado por uma série de seres estranhos que se auto-intitulam a Oficina Fantasma.

Os caras explicam que eles são um punhado de inteligências artificiais formadas nos confins do ciberespaço e que como sua existência depende da manutenção deste universo pela mão dos humanos, eles vêem o crescimento desenfreado de consumo, ganância e estupidez (palavras deles) como um vírus. Um mal destinado a acabar com a raça humana. Eles escolhem Zero para ser seu agente no “mundo real” devido ao seu caráter rebelde e questionador. Ele retorna ao mundo em um corpo robótico no melhor estilo Exterminador do Futuro, e com uma motoca iradaça (ironia, por favor).

No final, a parte bacana dessa encarnação do Motoqueiro foi justamente essa. Tirar o lado sobrenatural da história. Mas aí você pode reclamar “P&#%@ Kadu! O fato de ser sobrenatural é exatamente o cerne do Motoqueiro Fantasma!” e, olha, eu vou até concordar. Mas presta atenção! O lado sobrenatural ainda está lá, ele só não é “literalmente” sobrenatural como entendemos. Dêmonios, Céu, Inferno, Sam, Dean, etc. Você tem que perceber que o ciberespaço, como apresentando em inúmeras obras cyberpunk é um plano misterioso, desconhecido pela raça humana e, geralmente, quando alguém se mete com ele dá merda. É igualzinho ao Inferno, só que sem o Mefisto.

Vale a pena pegar as suas edições brasileiras de X-men 2099 (a partir da edição #6) e reler o que foi publicado dele aqui. Infelizmente não foi tudo, e se você quiser chegar até o final, só mesmo se aventurando pelo nosso ciberespaço (a.k.a. internet), ou encomendar de comic shops americanas, torcendo pra que ainda exista alguma coisa dele. Vai lá, seu sugapus que é muito pau!


PONTOS FORTES

  • Os desenhos. Já babei o ovo do Chris Bachalo o suficiente, qualquer coisa com ele desenhando já ganha pontos comigo. Mas de verdade, o Kyle Hotz também manda muito bem. Lembro até de vê-lo desenhando histórias do Venom e do Aranha na época da Saga do Clone. A anual do Aranha #7, com o “Planeta dos Simbiontes” também é desenhada por ele, cata lá que é bem bacana.
  • A cultura cyberpunk. É maneiro ver esse desenvolvimento nas revistas uns cinco anos antes das irmãs Wachowski ressuscitarem o tema com Matrix. É inegável que todos beberam da mesma fonte na hora de bolar suas histórias. Hoje em dia eu fico pensando se seria possível a Marvel Studios bancar um MCU 2099. Um filme do Motoqueiro tinha tudo pra ser bem fodão!
  • As gírias. Ao falar de 2099, eu nunca posso deixar de falar das gírias! Lembro de amigos meus na época reclamarem que as gírias todas tinham pinta de gíria paulista (sou do Rio de Janeiro, daí a reclamação), mas nunca vi problema. Hoje em dia, como professor de inglês, acho que o trabalho de tradução/localização dos gibis antigos bem melhor.

PONTOS FRACOS

  • O restante das histórias. Como nem tudo são flores, algumas histórias do “miolo” do personagem acabam sendo meio fraquinhas. Elas dão um revamp durante o período em que Destino se torna o presidente dos EUA (#ForaTrump) e o Motoqueiro vira o “Xerife” da Cidade Transversal. Mas como a própria linha 2099 decai um pouco depois de uns dois anos, a maioria dos gibis acaba sendo cancelada. É uma pena que um personagem tão maneiro acabe terminando suas histórias com um final tão em aberto. Mas assim como a série Firefly, vale pelo que tem, sabe?
Galeria de capas de Motoqueiro Fantasma 2099. À esquerda, a capa de X-men 2099 #6, com a primeira aparição do personagem.
Galeria de capas de Motoqueiro Fantasma 2099. À esquerda, a capa de X-men 2099 #6, com a primeira aparição do personagem.
The following two tabs change content below.

Kadu Castro

Quadrinista. Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.
  • Berta

    Sou suspeito pra falar porque sou fãzaço dessa fase, mas sempre achei que a Marvel tinha de ter salvado mais heróis 2099 pro universo regular – como fez com o Miguel O’Hara e com outros depois da Era do Apocalipse. O Motoqueiro 2099 tinha um conceito maneiro e uma visual único. Tinha vaga certa.

    • É verdade. Fiquei sabendo que ele fez uma aparição no Battleworld dessa nova Guerras Secretas. “Ghost Racers”, eu acho. Mas só isso. Uma pena não aproveitarem mais o personagem.

      Sou órfão do universo 2099 até hoje.

  • El Django

    Cara… por favor, se vc é professor de inglês, me fala. Como terminou as histórias do Motoqueiro 2099? Depois que ele virou xerife, o que aconteceu? Tenho uma revista dessa fase, não publicada no Brasil, desenhada fodasticamente pelo Ashley Wood. Mas não entendo lhufas de inglês. Sou fã do motoca 2099 e nunca soube direito como terminaram as suas histórias… por favor, faz um resumo básico do que não foi publicado no Brasil. Valeu.

    • Então, depois dele virar Xerife da Cidade Transversal, ele age em nome da SHIELD e de Doom como agente da Lei. E passa a ser odiado tanto pelas pessoas que ele defendia já que ele “se vendeu”, quanto pelos próprios securi-cops que ele comanda, já que ele era um “mau elemento”.

      Depois da queda de Doom, ele se reintegra, mas descobre que rolou uma “cópia” da mente dele quando ele foi transferido para a Oficina Fantasma. Rola uma briga de identidades e o “verdadeiro” Zero Cochrane vira uma entidade da internet, vagando por conta própria. Enquanto o Motoqueiro vai viver como Motoqueiro Fantasma no mundo real. Depois do alagamento do planeta no fim do universo 2099, anos depois da última publicação alguém encontra o corpo do Motoqueiro no fundo do mar.

      Termina super em aberto o final do Zero e do Motoqueiro, pelo menos até essa “conclusão” aí. Meio broxante, né?

      • El Django

        Sim, meio broxante mesmo… se bem que comparado com os outros t´tulos 2099, que ficaram bisonhos no final, o motoca se saiu muito bem. Pena que a parte final dele não foi publicada por aqui…