Games: Metal Gear Solid V

A dor fantasma da decepção.

Metal Gear Solid V: The Phantom Pain foi lançado em setembro do ano passado, mas só este ano tive o desprazer de desistir do jogo. O suposto desfecho da franquia criada pelo genial Hideo Kojima tinha tudo para ser inesquecível. Qualidade gráfica e limitações técnicas nunca foram restrições para uma das narrativas mais disruptivas e marcantes não só dos videogames, mas de toda a indústria do entretenimento nos últimos 20 anos. Fãs aguardavam ansiosíssimos pelo primeiro lançamento da série (e última parte da história) nos consoles da atual geração, mas o resultado foi uma baita decepção.

Se você não conhece pelo menos as premissas básicas de Metal Gear Solid, vamos a uma explicação rápida: uma trama de espionagem com boas doses de teoria da conspiração, tudo ancorado num contexto histórico real e acontecimentos ao longo do século XX, com um desenvolvimento de personagens espetacular e profundo, e inovações na interação do jogador que ninguém sonhava em ver no final dos anos 90. Pra vocês terem uma ideia, trata-se da principal referência nos videogames do chamado modo stealth, em que se valoriza muito mais passar despercebido pelos inimigos do que confrontá-los. O primeiro Metal Gear Solid saiu em 1998, inspirado em uma série de 2 outros jogos, intitulada simplesmente Metal Gear, que tinha sido lançada entre 1987 e 1990.

Desde 98 foram lançados mais 5 jogos da série ‘Solid’ além do primeiro, e em 2014 saiu uma espécie de prólogo para o quinto jogo, Metal Gear Solid V: Ground Zeroes. Com pouco mais de 2 horas de duração, Ground Zeroes mostrava uma nova jogabilidade sensacional e momentos da linha narrativa da franquia extremamente impactantes. Mais uma coisa importante pra vocês entenderem: os lançamentos dos jogos não aconteceram de forma cronológica. O quinto jogo da série (e seu prólogo) preencheriam uma lacuna bem no meio da história.

Em Metal Gear Solid V: The Phantom Pain enfim ficaríamos sabendo o que teria acontecido com o lendário Big Boss, um dos personagens mais carismáticos não só da franquia, mas do mundo dos videogames como um todo. Fica difícil demais contar algo da narrativa, tanto pela complexidade quanto pelo risco de spoilers, mas acreditem, o Big Boss é o cara. O final de Ground Zeroes mostrou um daqueles momentos em que o time de heróis se desestrutura completamente (manja os últimos momentos de O Império Contra-Ataca?), e o início de Phantom Pain é o recomeço de uma jornada. Não é exagerado dizer que se trata de uma das aberturas mais espetaculares de toda a história dos videogames, e a gente fica numa expectativa absurda do que vai ser o jogo. O problema é que o padrão de qualidade cai, e muito.

Narrativa consistente X mundo aberto

kojima
Hideo Kojima

A série metal Gear sempre esteve ancorada em uma narrativa muito consistente. Quando criança, Hideo Kojima e seus pais assistiam, toda noite depois do jantar, um filme, podia ser de guerra, terror ou western. Essa vivência deu uma bagagem cultural monstruosa para Kojima, o que é possível comprovar em referências e outros aspectos de todos os jogos da franquia. Em Phantom Pain, decidiu-se pelo formato de game em mundo aberto, no qual apesar de haver uma linha narrativa primordial, o jogador escolhe a ordem em que realiza as missões propostas no jogo, mesmo que a narrativa principal tenha linearidade. Os jogos de mundo aberto dominam o mercado de videogames na atualidade, em função da característica exploratória e da profundidade de imersão.

Pelo que se conhece da trajetória e dos princípios de Hideo Kojima, dá pra imaginar que a decisão de fazer um jogo em mundo aberto tenha vindo muito mais da Konami do que dele. O resultado, no fim das contas, é um pseudo mundo aberto, já que os principais cenários são locações ermas em desertos do Afeganistão e savanas africanas, e a exploração é limitada aos pontos no mapa em que ocorrem as missões. O impacto que Kojima sempre quis causar com sues histórias fica bastante prejudicado por missões repetitivas e momentos fortemente anticlimáticos, sem contar que o desfecho do jogo é abrupto e insosso. No momento em que desisti fiz questão de assistir gameplay e cut scenes feito filminho no Youtube. Confesso que se tivesse jogado tudo (80 horas em média para finalizar!!!) teria ficado muito puto da vida.

Contei lá no início que uma das caraterísticas marcantes da franquia é a valorização da habilidade furtiva, dos protagonistas se esgueirarem escondendo-se dos inimigos ao invés de enfrenta-los. Esses momentos só acabam sendo interrompidos por situações reveladoras do enredo (em cut scenes incríveis) e em algumas das boss battles mais marcantes da história dos videogames. Pois Phantom Pain, apesar de pedir bastante stealth, tem pouquíssimas boss batles marcantes, o que contribui ainda mais para a pegada anticlimática do jogo.

Conversei com muitos amigos gamers e as opiniões acabam divididas. Quem é fã da série, no geral, se decepcionou, achou Phantom Pain uma falta de respeito. Muita gente que não jogou os games anteriores gostou muito, até porque não dá pra negar que tecnicamente é um jogo excelente. Essa divisão de opiniões levanta, certamente, um debate muito importante sobre o futuro dos videogames: mais vale um arcabouço técnico impecável, uma boa história, ou um equilíbrio saudável de ambos? Pela opinião dos jogadores de primeira viagem a impressão é que a Konami acertou, mas pagando o preço alto de desagradar a fanbase que sustenta o sucesso da franquia.

O futuro de Metal Gear

Em dezembro do ano passado, poucos meses depois do lançamento de Phantom Pain, Hideo Kojima anunciou oficialmente sua já esperada saída da Konami e o lançamento de uma nova produtora, a Kojima Productions. Em junho deste ano, na E3 (um dos eventos mais importantes do mercado de games), foi anunciado o trailer do primeiro projeto de Kojima por seu novo estúdio. Intitulado Death Stranding, o jogo tem como protagonista o personagem Adam, que será interpretado pelo ator Norman Reedus, popular por sua atuação na série The Walking Dead. O trailer é bastante conceitual, mas apesar de não ser possível ter ideia de jogabilidade, já dá pra conferir a qualidade visual e dramática que marcaram a obra do diretor ao longo do tempo.

A Konami, por sua vez, quer espremer a laranja de Metal Gear até não poder mais. A Publisher anunciou, em agosto último, Metal Gear Survive, jogo cooperativo multijogador baseado na franquia. Quem conhece Metal Gear sabe bem que qualquer experiência multiplayer ou afim é inversamente proporcional às características consagradas da série. Só olhar a repercussão do anúncio nas redes sociais e vocês vão ver que é uma tremenda bola fora.

Kojima ainda não anunciou a data de lançamento do novo jogo. Só o que sabemos é que o game será exclusivo para Playstation, assim como aconteceu com a série Metal Gear até quase sua conclusão. Triste ver que a Konami perdeu a mão da série e, como consequência, deixou escapar um dos mais criativos desenvolvedores de jogos de todos os tempos. Bom é saber que com o status (merecidíssimo) que Kojima alcançou ele tem possibilidade de criar sua própria empresa e nos presentear com um novo projeto autoral. Que venha Death Stranding!

 

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Igor Oliveira

Pai orgulhoso, nerd fervoroso, cosmopolita convicto. Com três anos de idade passava o dia trocando aquelas fantasias antigas de super-heróis. Hoje, aos 38, é pai do Pedro e namorado da Marina. Coordenou o projeto Geek.Etc.Br na Livraria Cultura e estreou como roteirista de quadrinhos no final de 2016, no projeto Pátria Armada - Visões de Guerra.