Lazarus e os Reinos do Amanhã

A HQ de Greg Rucka e Michael Lark mostra como o totalitarismo econômico pode estar logo ali.

Distopias não metem medo só por causa dos exageros apocalípticos. Elas nos aterrorizam porque, no fundo, sempre vemos como é possível que sejam concretizadas. Ou pior ainda, quando elas já fazem parte da realidade (por isso Black Mirror é tão perturbador). Greg Rucka partiu da dicotomia entre o 1% mais rico e os 99% mais pobres para propor sua distopia – o Feudalismo futurista de Lazarus, da Image Comics. Na vida real, nosso mundo tem 62 pessoas que possuem mais riqueza do que a metade mais podre do planeta (3,6 bilhões de pessoas). Em Lazarus, as 16 famílias mais ricas do mundo possuem território, além dos poderes político, militar e de controle social. Vivem em guerra ou sob paz armada e tratados frágeis.

lazarus_hc_01Esse futuro feudal de Lazarus tem todos os elementos de uma história medieval – só que com a realidade batendo nossa porta. As famílias de magnatas são como reinos, todas com sua realeza (a Família), os serviçais (profissionais com habilidades que garantem algumas vantagens) e a plebe (chamada literalmente de lixo na HQ). Os “Lázaros” são como os Campeões dos reis, super-humanos criados num misto de engenharia genética e robótica – e com o dom da quase imortalidade (daí o Lázaro do nome).

Forever é a Lazarus da Família Carlyle, que controla a América do Norte. Filha predileta e líder militar do patriarca da família, ela nos é apresentada como a única figura de poder que começa a questionar a validade desse absolutismo.

No primeiro arco de Lazarus, batizado de Family, conhecemos esse mundo distópico pelos olhos de Forever, o ponto de vista do opressor. Logo nas primeiras páginas, conhecemos o processo de ressurreição da Lazarus depois de ser assassinada. Vemos no que o mundo se transformou. O totalitarismo, a concentração da produção e dos bens básicos nas mãos das famílias, tramas e traições típicas da realeza e os conflitos internos de uma assassina que deveria ser – mas não é – imune à injustiça e a barbárie.

Dura de Matar

Um dos primeiros conceitos de Forever.

A visão questionadora de Forever é uma marca registrada de Greg Rucka. O autor é um dos maiores roteiristas dos quadrinhos atuais, com centenas de trabalhos para DC, Marvel e Image. Mas ele brilha mesmo quando abraça temas mais humanos dentro de suas realidades fantásticas. Não podemos esquecer da premiada Gotham City Contra o Crime, em que ele contou ao lado de Ed Brubaker o cotidiano dos policiais da cidade do Batman. Rucka também é o responsável atual pelo novo cânone da Mulher Maravilha, que explora a óbvia e por muitos anos ignorada bissexualidade da personagem (como você leu aqui no Mundo Gonzo).

Os Lazarus Forever e Joacquim, nem tão rivais assim.

Apesar de ser uma novela política e cheia de ação, Lazarus tem um tipo de sensibilidade que não passa despercebida. Como na relação entre os Lazari de diferentes famílias, na luta pela sobrevivência dos cidadãos comuns e em como Forever luta internamente para equilibrar seu posto de arma suprema da família e seu desejo de saber a verdade sobre si mesma.

O segundo arco da série (Lift) trata de como os habitantes do “lixo” podem subir na escala social, tornando-se serviçais. Uma espécie de vestibular da eugenia que seleciona apenas os mais aptos geneticamente, desde que tenham habilidades práticas a oferecer – descontando-se as cores apocalípticas, conseguimos enxergar vários elementos da narrativa no mundo real. Este arco fecha o primeiro encadernado de luxo de uma série que promete ser longa. Ao final deste livro, conhecemos apenas três territórios, duas famílias e dois Lazari.

Pra Highlander nenhum botar defeito.

Para muita gente Lazarus é uma espécie de Game of Thrones futurista. Há semelhanças, mas o próprio autor as ameniza dizendo que nunca leu os livros e evita a série da HBO para não pegar ideias emprestadas sem querer. Michael Lark, o desenhista e companheiro de Rucka desde Gotham City Contra o Crime, lembra que o protagonismo de Forever como coração da história afasta qualquer comparação com o sucesso de GoT.

O futuro sombrio de Lazarus é perfeitamente evitável – mas possível. A tempestade política que varreu o mundo em 2016 (Brexit, Trump e afins) não ajuda muito nesse otimismo, mas por pior que seja o inimigo, o regime ou a catástrofe, sempre há uma forma de vencer. E as histórias, como Lazarus, nos ajudam a entender do que o ser humano é capaz – para o bem e para o mal. Está tudo lá, nas histórias, para aprendermos.

Como diz a melhor criatura que já andou sobre a terra, Neil Gaiman: “Os contos de fadas são mais que verdadeiros. Não porque nos dizem que os dragões existem, mas porque eles nos contam que os dragões podem ser derrotados”.

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