Heróis fascistas? Seu fascínio e sua redenção

O que há por trás do nosso clamor por justiça nas mãos dos superpoderosos?

Aproveitando essa onda conservadora e ideais deturpados de justiça e moral, me surge a vontade de explorar um pouco a dinâmica dos heróis clássicos e a desconfortável verdade por debaixo dos panos de suas capas: que super-heróis são ideais fascistas. Me inspirando muito nesse artigo publicado na NPR, exploro aqui quase verbatim esse contexto muito necessário para esses nebulosos dias atuais.

Por um lado, heróis significam ideais nobres em seu sacrifício, nobreza e comprometimento para com aqueles que precisam de proteção face à vilania do mundo. Mas mais forte que tudo, eles representam o fascismo na simbologia de poder e força para exercer a justiça, onde poucos devem e conseguem ditar o destino do mundo e mantém a proteção do status quo acima de qualquer custo.

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Em 1938, o Superman veio como um ícone progressista. Criado por dois jovens judeus em Cleveland assistindo a crescente ameaça de Hitler na Europa, em seu primeiro ano de vida o ‘Campeão dos Oprimidos‘ (sua alcunha antes de ‘Homem de Aço’) foi atrás de senadores corruptos, traficantes de armas e déspotas estrangeiros.  Em suas primeiras aventuras no mundo, ele forçou a mão do Governo para criar casas populares em uma favela que o próprio Superman propositalmente destruiu. Taí um cara com uma visão progressista. Durou pouco.

O Homem Morcego, por sua vez, veio exclusivamente para ajudar a elite de Gotham a combater ladrões de jóias, extorsão e tentativas de assassinato contra os poderosos. Demorou um bom tempo para ele olhar para os crimes que afetavam o reles plebeu – o Menino Prodígio o ajudou a ser mais pé no chão e descer para as ruas. Capitão América e a Mulher Maravilha, por sua vez, vieram exclusivamente para enfiar a porrada nos nazistas. Literalmente. Na fuça.

Banquem o governo contra os japoneses! Entenderam? Eles estão numa banca! Rá!
Banquem o Governo contra os japoneses! Entenderam? Eles estão numa banca!

A Segunda Guerra Mundial trouxe aos nossos intrépidos gajos e raparigas de vestimenta com gosto duvidoso a missão de se juntar ao Capitão América. Não necessariamente para lutar diretamente com o Eixo do Mal, mas achar os conspiradores locais e incentivar os leitores a construir jardins da vitória e comprar títulos do governo.

Nessa onda patriótica de exploração da imagem dos heróis, criou-se um movimento que continuou por muitas e muitas décadas no pós-Guerra. Quando antes existiu a defesa os oprimidos agora virou a força e verdade do jeito americano – com todas as suas complicações e barbaridades. Imaginem, heróis que ajudam a inspirar um país a derrotar o fascismo nazista é um homão, grandão, brancão que se encaixa perfeitamente no fetiche de um certo Adolf e sua trupe.

Quando alguém que possui poderes e habilidades super-humanas, e usam tais poderes contra aqueles meros mortais mais frágeis e fracos quando ‘saem da linha’, como realizar isso? Krypton não era um planeta de uma ‘super-raça’, como diziam os gibis? Teve gente que se incomodou com isso.

O homem que mudou a indústria.
O homem que mudou uma indústria.

Numa arenga do Dr. Frederic Wertham chamada ‘Seduction of the Innocent‘, ele explora o fato do Super-Homem, em todo seu esplendor, ser alguém que machuca sem nunca ser machucado. O chamou de ‘fascista não-americano’, e pinçou um nervo na indústria de quadrinhos. Há provas que Wertham manipulou, fabricou e distorceu muito daquilo que ele pregava em seu artigo, mas seu estrago na época foi tremendo: prontamente acabaram os gibis de horror, de crime e culminou na falência de inúmeras editoras.

Curiosamente, os gibis de super-heróis – e seus tons inerentemente fascistas – pouco mudaram. Clark Kent passou a tirar seu poder não de uma super-raça, mas sim dos raios solares que aquecem nosso lindo mundinho. Entretanto o Batman, esse cavaleiro das trevas, foi agraciado com um papel importante pela Polícia de Gotham (a ponto de ter um distintivo e tudo) e se tornou peça fundamental de um inepto Comissário Gordon para solucionar os problemas criminais da cidade-irmã de Metrópolis.

A preocupação de Wertham sobre os elementos fascínoras se embasavam nos temas e implicações dos mesmos. Não nos textos ali contidos. Era mais sobre o simbolismo e os efeitos nas manipuláveis mentes dos jovens leitores. Antes dos anos 60, crianças eram a base da audiência desses quadrinhos que, em sua maioria, apresentavam questões simples de moralidade – bom vs mal, luz vs escuridão. Difícil existir a complexidade abstrata de contexto político, psicologia e caracterização sútil naqueles tempos.

Tudo isso mudou quando um certo bigodudo simpático  e seus amigos entraram em cena.

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Stan Lee, Jack Kirby e Steve Ditko perceberam uma mudança no comportamento de consumo de gibis – adolescentes e adultos agora compravam quadrinhos. Quando criaram o Quarteto Fantástico em 61 e, principalmente, quando o Homem-Aranha apareceu em 62, o mundo foi apresentado a heróis cujas turbulentas vidas (cheias de conflitos e inseguranças) refletiam às de seus ávidos leitores.

Com a famosa frase ‘com grandes poderes vêm grandes responsabilidades’, Lee trouxe à tona uma das mais importantes qualidades de combate ao pensamento fascista: sacrifício. O altruísmo de outros heróis não era questionado e servia de mero artifício de assegurar que o bem vence sempre o mal. O fato de seus tremendos poderes blindarem eles de algum perigo ou dor também servia para questionar se, de fato, eles eram mesmo heróicos em seus atos.

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Mas com a noção e certeza que o Peter Parker sofria em sua vida antes e depois de virar o Aranha, trouxe à Marvel quadrinhos que exploravam a ansiedade, angústia, frustração e trauma de personagens cujos poderes serviam mais para complicar suas vidas que ajudar nela. Demorou muito tempo para a DC e suas criações acompanharem essa mudança de paradigma, mas eventualmente o Super-Homem passou a ganhar e perder poderes com imensa freqüência e o Bruce se tornou esse homem obsessivo, depressivo e torturado.

Nessas últimas décadas, começando nos anos 80, quadrinhos de heróis esqueceram as crianças e focaram em histórias e arcos focados exclusivamente em pós-adolescentes e adultos. Essa nova era de gibis mais sombrios e pessimistas, a presença fascista latente nos heróis voltou com toda a força. Em livros como Watchmen, Batman – Cavaleiro das Trevas, O Reino do Amanhã e recentemente Guerra Civil, seus criadores exploram os limites de quando a intervenção dos nosso heróis se dá de forma não tão benevolente. Em inúmeras ocasiões, os super-heróis se tornaram ditadores (geralmente a favor do ‘bem comum’) e dizimaram toda e qualquer resistência à manutenção da sua imposição do status quo.

Então, de que lado você está?
Então, de que lado você está?

Reparem como em Batman vs Super-Homem e Capitão América: Guerra Civil, vemos bilionários sem poderes tentando combater uma ameaça super-poderosa sob o medo do perigo à liberdade e controle do Governo e bem-estar social.  O cinema tem nos mostrado cada vez mais uma imagem simbólica e sombria de um Estado de Exceção.

Apesar de criados sob uma premissa progressista, o gênero de super-heróis e sua narrativa atingem em cheio a defesa da manutenção do status quo através da imposição do poder.

Ultimamente, vemos heróis defendendo princípios que realmente importam.

A luz no fim de um túnel bastante longo é que cada vez mais há espaço para personagens que desafiam a norma. Uma nova Mulher Maravilha e sua sexualidade, uma Ms. Marvel paquistanesa, a Riri Williams (Ironheart), um Clark Kent defendendo manifestantes contra a opressão policial e o Homem-Morcego batalhando o racismo da polícia… espero estarmos frente à exibição de outros personagens que também trarão à iconografia do mundo de super-heróis a mudança que ele tanto precisa.

Cada vez que os heróis parecerem diferentes, agirem diferente e a sociedade dentro dos gibis se parecer com aquela fora das páginas, poderemos perceber se há espaço para escaparmos do sempre presente cenário fascista que acompanha nossos super-heróis. Precisamos mais do que nunca que os quadrinhos representem uma luta pelo retorno à princípios humanitários e de inclusão – para que assim não vejamos a distopia presente nos quadrinhos aparecer fora deles.

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Bruno Freitas

Gosto de gibis ruins (dizem), me amarro em conteúdo nerd de todos os tipos e, aparentemente, estou aqui para falar de adaptações para a telona e telinha – salvo algumas boas exceções e vontades minhas de devaneios paralelos.
  • Silvestre Peba

    Excelente texto, o quadrinhos sempre se adaptarão as mudanças sociais, ou são um termômetro do que esta acontece nos meios sociais, como já citado no texto o túnel e longo mas estamos caminhando em direção a luz, ou não.

    • Bruno Freitas

      Agradeço muito pela sua opinião. A intenção sempre foi levantar a discussão e dar aquele passo em direção a essa luz… apesar do túnel ser longo! Abs!