Capitão Fantástico (com SPOILERS)

O road movie mais emocionante que você vai assistir

Cuidado. O pôster de divulgação do filme ‘Capitão Fantástico’, em cartaz nos cinemas brasileiros desde o final de dezembro, pode dar a impressão de que o que você vai assistir é uma comédia com momentos dramáticos, a lá Wes Anderson ou com a mesma pegada de ‘Pequena Miss Sunshine’. Mas mesmo que esse meu alerta tenho te deixado decepcionado, não deixe de ir ao cinema. O filme lindo, uma baita lição de vida sobre equilíbrio, bom senso e pontos de vista. O diretor Matt Ross, que tem extensa carreira de ator mas apenas 4 filmes como diretor, acaba de entrar pra história do cinema. Importante: há SPOILERS adiante.

Uma tomada aérea de uma floresta abre o longa, e ao nos embrenharmos entre as árvores acompanhando a câmera vemos um cervo altivo, porém atento à presença de predadores, que logo se mostram. Um jovem escondido nos arbustos captura e mata o animal, e logo após o ato é cercado por mais um adulto e 5 crianças de idades variadas. São seu pai e irmãos, e o garoto, Bo (George MacKay), acaba de concluir um ritual de passagem para a vida adulta, afirma o pai, Ben (Viggo Mortensen).

Ficamos sabendo, em seguida, que o pai vive com os meninos em cabanas na floresta, e a mãe da família, Leslie (Trin Miller), voltou para a cidade para um tratamento de uma doença grave. Em uma vida digna de dar inveja às comunidades hippies dos anos 60, a família não sai dali, tem treinamentos físicos com disciplina militar e as recomendações de leitura do pai, que vão de filosofia a política e literatura, tem que ser seguidas à risca, com direito a exames de verificação de conteúdo. Periodicamente Ben vai a um estabelecimento próximo às cabanas da família, uma espécie de bar, onde pode telefonar para saber notícias da esposa. Logo após essa apresentação inicial dos nossos protagonistas, à primeira ligação que faz, descobrimos que a esposa tinha se matado no dia anterior.

O desenvolvimento da história começa aí. Ben tem uma carta testamento da esposa com seus desejos após a morte (Leslie era budista e queria ser cremada), mas a família dela planeja uma cerimônia católica. Conforme Ben insiste na posição contrária, para atender o desejo de Leslie, seu sogro ameaça levar a polícia para prendê-lo caso apareça no velório. As crianças ficam desoladas com a impossibilidade de prestarem sua última homenagem à mãe, então Ben joga tudo pro alto e a jornada começa, rumo à cidade dos pais de Leslie, onde será realizada a cerimônia. O transporte da família é o simpaticíssimo Steve, um ônibus escolar das antigas.

Ben é o tal Capitão Fantástico que dá nome ao filme. Em um momento no início da viagem, o pai fala aos filhos pelo rádio do ônibus e se refere a si mesmo como o capitão de um navio, daí a referência. O carisma do personagem e suas atitudes peculiares também contribuem para a construção de uma protagonista ímpar, quase quixotesco, mas sem exageros. Viggo Mortensen está muito bem no papel, na medida certa pra expressar o quanto, muitas vezes, pessoas que optam por uma vida longe da sociedade de consumo exacerbado acabam construindo uma realidade própria e que também é cheia de pré conceitos. Por outro lado, o que é muito bom, o personagem desmistifica a figura do hippie maconheiro ‘mala sem alça’ que não tem nada a dizer.

A maior graça do filme, inclusive, é essa. O ‘Capitão’ não está sempre certo, nem errado. A mesma coisa vale para seu sogro, o grande antagonista da história toda. Porque a vida é assim. Nos momentos de maior conflito de Ben com alguns dos seus filhos a lição que fica é que faltou ouvir a vontade deles, não simplesmente impor aquilo que ele achava que era melhor. É lindo de ver, por outro lado, como o personagem lida com assuntos delicados com os filhos, falando a verdade. Eu que sou pai de menino me identifiquei demais com esse aspecto do personagem. Impressionante como uma das referências à cultura pop que está dentro do filme aconteceu comigo e com meu filho exatamente com a mesma obra, a HQ ‘Maus’, de Art Spiegelman.

Os puristas, quer da direita ou da esquerda, podem odiar ou amar o filme por conta dessas inúmeras referências, que atendem sim à construção necessária de um estereotipo como ponto de partida do desenho de um personagem que é muito mais profundo, que é um todo muito mais rico que suas partes. Porque nós somos todos assim. Faça um favor pra você mesmo: deixe as ideias pré concebidas em casa e vá correndo pro cinema. Como não se trata de blockbuster, não tem super herói e nem é Star Wars, o filme já está em poucas salas pelo país, visto que estreou em 22/12. Depois passa aqui pra conversar com a gente. Até a próxima.

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Igor Oliveira

Pai orgulhoso, nerd fervoroso, cosmopolita convicto. Com três anos de idade passava o dia trocando aquelas fantasias antigas de super-heróis. Hoje, aos 38, é pai do Pedro e namorado da Marina. Coordenou o projeto Geek.Etc.Br na Livraria Cultura e estreou como roteirista de quadrinhos no final de 2016, no projeto Pátria Armada - Visões de Guerra.