O Bom Lugar de um Pode Ser o Inferno do Outro

“What the Fork”! Um divertido detalhe que aproxima a comédia The Good Place e a HQ I Hate Fairyland.

Quando você consome muita Cultura Pop, acaba pegando mais do que referências, mas também coincidências. Já toquei nesse assunto quando falei de como certos produtos dividem uma premissa sem copiar um ao outro (Stranger Things e Paper Girls, Lazarus e Game of Thrones). E uma dessas coincidências aconteceu essas semanas ao ler a HQ da Image Comics I Hate Fairyland e assistir à nova comédia com Kristen Bell e Ted Danson, The Good Place. Elas são diametralmente opostas, mas têm uma divertida coincidência. Em ambas, as protagonistas não podem usar suas bocas sujas.

Que situação do “baralho”

The Good Place estreou em setembro na NBC (Global, aqui no Canadá) e é uma série de Michael Schur, também criador dos sucessos Parks and Recreation e Brooklyn Nine-Nine (ele também escrevia The Office, onde interpretava o irmão esquisitão do Dwight, Mose). Na série, Kristen Bell (Veronica Mars e House of Lies) vive – na verdade, morre – Eleanor, uma pessoa desprezível que não vale uma nota de três, mas que acaba parando no “céu” por uma simples troca de fichas. Não é bem o céu, o Good Place do nome é o “Lugar Bom” criado por um dos arquitetos celestiais (Ted Danson) como recompensa por uma vida de sacrifícios na Terra. A conta é simples: foi uma pessoa boa com uma bela nota de altruísmo vai pro Good Place, do contrário é Bad Place na cabeça.

Como você viu no trailer, Eleanor não consegue falar um palavrão sequer. Tudo sai “what the fork”, “bullshirt”, “son of a bench” (imagina só como vai ficar a versão legendada ou a dublada se for parar no SBT). E olha que Eleanor tem muitos motivos para praguejar. Vendo que é um péssimo negócio ir para o Bad Place, ela se alia a sua alma gêmea (na verdade, a alma gêmea da verdadeira Eleanor) para tentar permanecer no paraíso. Por sorte, sua cara-metade acidental é Chidi, um professor de… Ética. Mas como Eleanor não é nada perfeita, todo escorregão ético acaba colocando fogo na paz do Good Place. A série é bem engraçada e tem a marca das boas comédias de Michael Schur. Tomara que tenha vida longa.

Fluff my Life!

Botando pra “ferver”

A outra que não pode dizer nenhum fuckzinho é Gertrude, heroína/vilã de I Hate Fairyland. Na HQ, escrita e desenhada por Skottie Young (Little Marvel, Rocket Raccoon), Gertrude é uma menina de seis anos que é transportada para um mundo de fadas e fantasia… e fica presa lá por 30 anos sem envelhecer. Completamente entediada com esse mundo de faz-de-conta e presa num corpo infantil, Gertrude resolve tocar o terror e chacinar todas as lindas criaturas que achar pela frente até conseguir voltar para seu mundo. Quando eu digo chacinar é machado, porrada, bomba e magia negra mesmo. A HQ é recheada de cenas de violência brutal contra figuras fofas. Gertrude é o Lobo no País das Maravilhas.

I Hate Fairyland tem um humor certeiro e ótimas piadas. Momentos hilários como as mortes dos narradores de cada capítulo, a reação do vilão que é desafiado por Gertrude e acaba percebendo que ela é mais bolada que ele e, é claro, todos os palavrões que são deliciosamente trocados por “mothermuffin”, “what the spell”, “fluff my life etc.

A arte de Skottie Young é o máximo. Você vai ganhar uns bons momentos vendo cada pedacinho de páginas cheias de cores gritantes e sangue pra todo lado. O traço e a temática também lembram bastante a HQ brasileira A Última Bailarina, de Guilherme Sousa (que já apareceu no Mundo Gonzo).

Que “borra” é essa?

Eleanor e Gertrude têm muito em comum, mas objetivos bem diferentes. Uma quer ficar onde está e aproveitar toda a segurança e chatice que só o paraíso pode oferecer. Já nossa amiga de cabelo verde e sangue nos olhos quer mesmo é sair dessa maldita terra de rios de chocolate e nuvens de algodão-doce. Uma coisa é certa: Eleanor morreu… e Gertrude “preferia estar morta”.

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