As marés de Numenéra

Um RPG onde o conflito é, possivelmente, a pior opção

Em Agosto de 2012, Monte Cook, um dos autores de RPG mais aclamados da indústria, anunciou uma idéia no Kickstarter: fazer um novo jogo de roleplay, baseado num sistema próprio, com história e mundo por ele criado. Esse novo jogo, esse novo mundo, se chamaria Numenéra.

Não obstante o fato deste que vos escreve ser um maluco pelo Kickstarter, acompanhando semanalmente os projetos, apoiando, até esse momento, 71 projetos, o que mudava nesse projeto era quem estava por trás dele. Monte Cook é um mito.

Monte foi designer sênior da 3ª edição do Dungeons & Dragons, que com sua atualização 3.5 é pra mim a mais completa forma de se jogar RPG que existe… hoje, mestro (porcamente) uma aventura que usa a edição 3.5 e seus mil materiais e Pathfinder, praticamente um D&D edição 3.75.

O nome do jogo, Numenéra, faz referência à tecnologia deixada por civilizações passadas. A palavra numen tem raiz no Latim e significa ‘divina presença pervasiva’ e era refere ao período quando se passa o jogo – um bilhão de anos no futuro, aqui mesmo na Terra.Aventureiros fazem parte do Nono Mundo, dado que oito civilizações nasceram e caíram nesse tempo. Ítens tecnológicos, chamados ‘nanidades’, são relíquias tecnológicas deixadas por essas civilizações que, esquecidas, quando achados são tidas como mágicas. Como diz a Terceira Lei de Clarke: ‘Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de magia’.

Numenéra foi feito dentro do Cypher System, sistema de jogo inteiramente novo do Cook, onde é possível montar seu personagem em instantes e partir logo pra aventura. Se decide rapidamente, em três pilares, quem seu personagem é: “Eu sou (Descrição) (Tipo), que (Foco)”. A sua descrição carrega sua característica mais forte, o seu tipo se você prefere ser um guerreiro, um adepto ou típico ladino faz-tudo. Com essa rápida referência, parte-se para o roleplay e a interação entre personagens futuros desafios deixados pelo Mestre.

Com tanta liberdade para a interpretação, cabe muito à entrega dos jogadores, e do Mestre, para entregar a melhor experiência possível. Não dá pra explicar ao certo o quão bem isso funciona, mas confiem em mim: é de longe o sistema onde mais rápido consegue-se começar a jogar. Mas se ainda assim entrar num novo mundo é amedrontador demais, depois do Carnaval será lançado Torment: Tides of Numenéra.

Criado pelo povo por trás do Planescape: Torment, considerado por muitos (e por quem vos escreve) o melhor jogo de RPG para computador de todos os tempos em termos de narrativa, através de uma campanha impressionante no Kickstarter, conseguiram, com ajuda de mais apoiadores, mais de cinco milhões de dólares para construirem o que já está sendo considerado o melhor RPG já feito sobre evitar conflitos.

Muito respeitoso ao modelo criado por Monte em 2012, a interpretação, o diálogo e a astúcia são mais importantes que a força e a determinação em superar qualquer conflito na porrada. Numenéra trouxe uma noção de liberdade de expressão e livre arbítrio pouco ou nunca antes vista em RPGs. Como orgulhoso apoiador do Kickstarter que deu vida ao jogo, mal posso esperar para ver o que me espera no que já é tido como o RPG mais brilhantemente estranho até hoje lançado.

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Bruno Freitas

Gosto de gibis ruins (dizem), me amarro em conteúdo nerd de todos os tipos e, aparentemente, estou aqui para falar de adaptações para a telona e telinha – salvo algumas boas exceções e vontades minhas de devaneios paralelos.