A Gigantesca Barba do Mal

A ótima graphic novel do britânico Stephen Collins é lançada no Brasil.

barba_mal

Imagine uma ilha em que tudo é certinho, simétrico, e nada sai fora do programado. Pra completar o marasmo, a mesmice e a sensação de porto seguro, o nome da cidade ali estabelecida é AQUI. Na tal cidade vive Dave, um disciplinado cidadão perfeitamente adaptado à sua rotina. Vai ao trabalho, cumpre suas atribuições, e ao voltar para casa se dedica ao hobby de desenhar sua rua enquanto ouve ‘Eternal Flame’ sucesso da banda The Bangles e um dos clássicos absolutos dos 80s. É claro que um lugar tão certinho como esse só podia funcionar se tivesse um oposto, um desconhecido, um lugar que está além do vasto oceano e que ninguém ousa explorar: e esse lugar, evidentemente, chama-se LÁ.

Essa é o contexto de A Gigantesca Barba do Mal, graphic novel do britânico Stephen Collins lançada aqui no Brasil pela Editora Nemo. O jeitão de fábula, com uma premissa extremamente simples, é prato cheio pra atrair tanto o leitor habitual de quadrinhos quanto quem quer experimentar o formato, mas o simples está longe de ser simplista. Tanto em termos de estética quanto de conteúdo, Collins nos presenteia com uma verdadeira obra de arte.

a13qa8yfm8l
A sua ilha

Desbunde visual

91ojdusqltlPrimeiro vamos falar do visual. O que o cara faz com os requadros é absurdo. Ok, deixa eu explicar o que são requadros já que nem o revisor de texto reconheceu a palavra: requadros são os quadrinhos em si, a delimitação que o artista usa para montar a sequência da história. Quer pela existência ou ausência deles, A Gigantesca Barba do Mal é um desbunde. Collins os usa com maestria e sacadas ótimas, como por exemplo representando as folhas de caderno em que Dave faz seus desenhos. A passagem do tempo também é muito bem trabalhada, mas eu estou aqui falando disso e nem contei pra vocês minimamente como se dá o desenrolar da história. Vamos lá.

Logo no começo da narrativa ficamos sabendo que o nosso Dave, a vida toda, nunca teve cabelo na cabeça a não ser pela sobrancelha e um único fio entre o nariz e a boca. E não adianta Dave cortar ou aparar esse fio que, teimoso, cresce imediatamente outra vez. O que abala a mesmice de AQUI acontece em uma tarde como outra qualquer, em que Dave faz sua apresentação diária de dados sobre a empresa em que trabalha. O gráfico que costuma mostrar todos os dias em uma reunião que conduz está estranhíssimo nesse dia, e no meio da apresentação e de uma chuva de perguntas dos colegas sobre o documento, aquele único pelinho no rosto começa a crescer, crescer, crescer, até se tornar uma barba enorme, que também não adianta aparar. Daí pra frente leia a HQ e descubram o que acontece.

Um turbilhão de ideias

stephen_collinsA Gigantesca Barba do Mal põe na mesa tanto assunto importante pra discutir que dá pra fazer um parágrafo inteiro só citando esses temas. Quer ver? Tem rotina, segurança, insegurança, burocracia, padronização, ética, diferenças, indiferença, solidão, alienação, a passagem do tempo, medos, ordem, desordem, ciclos, o desconhecido e como reagimos a ele, preconceito, enfrentamento, sublimação, exploração, espetacularização, manipulação, enfim, tudo isso e certamente mais pontos que com certeza vocês vão achar. Quer nas imagens ou na narrativa textual, essa riqueza de ideias está presente a cada virada de página.

Como cartunista e ilustrador, Stephen Collins já ganhou vários prêmios e atualmente tem trabalhos publicados com regularidade na revista de final de semana do The Guardian, um dos mais importantes jornais do Reino Unido e do mundo todo. Certamente uma aguda observação do cotidiano e a experiência como cartunista contribuíram bastante para o resultado de A Gigantesca Barba do Mal, que é sua primeira graphic novel. Atualmente o artista trabalha em uma segunda, e tomara que a Nemo traga para o Brasil também. O trabalho da editora tem sido importantíssimo para conhecermos uma produção de quadrinhos mais autoral que vem de outros mercados que não o americano e de casas publicadoras alternativas e independentes. Vale entrar no site da Nemo e dar uma garimpada.

Até a próxima!

 

The following two tabs change content below.

Igor Oliveira

Pai orgulhoso, nerd fervoroso, cosmopolita convicto. Com três anos de idade passava o dia trocando aquelas fantasias antigas de super-heróis. Hoje, aos 38, é pai do Pedro e namorado da Marina. Coordenou o projeto Geek.Etc.Br na Livraria Cultura e estreou como roteirista de quadrinhos no final de 2016, no projeto Pátria Armada - Visões de Guerra.